Tomar decisão com consciência - o que acontece no cérebro?
Tomar decisões é uma parte inevitável da vida – desde as escolhas mais simples, como “o que vou cozinhar hoje?” até às mais complexas como “devo aceitar esta nova oportunidade de trabalho?” Mas o que acontece no nosso cérebro quando decidimos?
Este artigo explora a anatomia da decisão à luz da neurociência, revelando como emoção, instinto, memória e contexto social se entrelaçam para influenciar as nossas escolhas. Se queres compreender melhor o processo cerebral por trás das decisões, este texto é para ti.
A importância das decisões no dia a dia
“Mesmo quando tudo parece desabar, cabe a mim decidir entre rir ou chorar, ir ou ficar, desistir ou lutar; porque descobri, no caminho incerto da vida, que o mais importante é o decidir.”
Todos os dias tomamos decisões. Algumas são tão pequenas que passam despercebidas. Outras têm o poder de transformar a nossa vida.
Decidir é escolher um caminho e deixar outros para trás. É assumir o que queremos e sermos responsáveis por isso. Mesmo quando optamos por “não decidir”, já estamos a fazer uma escolha.
Cada decisão, consciente ou não, orienta-nos para um destino. E quanto mais alinhadas estiverem com os nossos valores e objetivos, mais sentido fará o percurso que construímos.
O cérebro por trás das nossas escolhas
Desde escolher o que vestir até responder a um e-mail, o nosso cérebro está constantemente a decidir. Algumas decisões são automáticas, outras exigem reflexão e envolvem emoções. Mas como é que o cérebro faz isso?
Segundo a especialista em Neurociência Aplicada, Paula Perdigão, o córtex pré-frontal é como um centro de comando: recebe e organiza informações emocionais, racionais e contextuais para nos ajudar a escolher.
Este processo não acontece apenas nas grandes decisões. O cérebro também atua nas escolhas do dia a dia — aquelas que fazemos sem pensar, mas que moldam os nossos hábitos e rotinas.
Etapas do processo decisório
Tomar uma decisão envolve muito mais do que parece à primeira vista. Por trás de cada escolha, o nosso cérebro ativa uma rede complexa de mecanismos que trabalham em conjunto para nos ajudar a decidir.
Vamos conhecer, de forma simples, as principais etapas desse processo:
Análise das opções
O cérebro começa por avaliar as alternativas disponíveis, pesando os prós e contras. É aqui que entra o córtex pré-frontal — uma área que nos ajuda a pensar com clareza e a organizar a informação.
Memória de curto prazo
Para conseguirmos comparar opções, o cérebro precisa de manter algumas informações “à mão” durante o processo. É aqui que entra a memória de curto prazo — uma espécie de bloco de notas interno que nos ajuda a organizar o pensamento. O córtex pré-frontal, juntamente com outras áreas cerebrais, tem um papel essencial nesta etapa, permitindo que mantenhamos o foco e façamos escolhas mais conscientes e ponderadas.
Gestão das emoções
As emoções têm um papel fundamental na tomada de decisões. Áreas como a amígdala e o córtex cingulado anterior ajudam-nos a lidar com sentimentos que surgem durante o processo, como dúvida, entusiasmo ou medo.
Recompensa
O cérebro tenta prever o que pode acontecer com cada escolha. O córtex orbitofrontal atribui valor às opções, ajudando-nos a perceber qual poderá trazer mais benefícios ou satisfação.
Controlo da impulsividade
Nem sempre é fácil resistir a decisões rápidas ou impulsivas. Felizmente, o córtex pré-frontal também nos ajuda a pensar a longo prazo e a manter o foco nos nossos objetivos.
Integração de sentidos e pensamentos
Antes de tomar uma decisão, o cérebro junta o que sentimos, o que percebemos e o que pensamos. Esta integração é feita por áreas como o córtex parietal e o córtex temporal, que combinam informações sensoriais (como sons, imagens ou sensações físicas) com dados cognitivos (como memórias ou raciocínios). Este cruzamento de perceções permite-nos ter uma visão mais completa da situação e tomar decisões mais ajustadas à realidade que estamos a viver.
Ação
Depois de todo este processo, o cérebro transforma a decisão em ação. É aqui que entram as áreas responsáveis pelo movimento e pela execução da escolha.
Emoções e lógica: será que decidimos com a razão?
Nem sempre decidimos com lógica. Aliás, muitas vezes, as emoções têm mais influência do que imaginamos.
O nosso cérebro não funciona como uma máquina racional — ele é profundamente emocional. O sistema límbico, responsável pelas emoções e motivações, analisa o impacto emocional de cada opção e envia sinais ao córtex pré-frontal, que é onde a decisão é tomada.
Além disso, há substâncias químicas no cérebro — os neurotransmissores, como a dopamina e a serotonina — que também influenciam as nossas escolhas. Estão ligadas ao prazer, à recompensa e ao comportamento social, e podem fazer-nos sentir mais confiantes ou mais cautelosos.
Mesmo quando temos toda a informação disponível, fatores como a pressa, o ambiente à nossa volta ou ideias pré-concebidas podem dificultar o processo. E é por isso que, muitas vezes, decidir não é fácil — porque não depende só da razão, mas também do que sentimos, do que vivemos e do que nos rodeia.
Barreiras à tomada de decisão
Tomar decisões nem sempre é simples. Há fatores que nos influenciam - alguns vêm de fora, outros vivem dentro de nós. Conhecer essas barreiras ajuda-nos a compreender por que, por vezes, hesitamos ou sentimos dificuldade em escolher.
1. Fatores externos (ambientais):
Pressão do grupo
Estar rodeado por outras pessoas pode afetar as nossas escolhas. Podemos sentir vontade de agradar, de alinhar com o grupo ou até de competir. Quando o desejo de manter a harmonia supera o pensamento crítico, corremos o risco de cair no chamado “pensamento de grupo” — e isso pode levar a decisões menos eficazes.
Falta de tempo
Quando estamos com pressa, o cérebro recorre a atalhos mentais para decidir rapidamente. Embora úteis em algumas situações, esses atalhos podem distorcer a realidade e levar-nos a escolhas precipitadas.
Preconceitos pessoais
Todos temos crenças que moldam a forma como vemos o mundo. Às vezes, procuramos apenas informações que confirmam o que já acreditamos – é o chamado viés de confirmação. Outras vezes, damos um peso excessivo à primeira informação que recebemos, seja ela algo que ouvimos, vimos ou lemos – e isso é o viés de ancoragem. Essa “âncora” inicial pode influenciar todo o processo de decisão, mesmo que existam dados mais relevantes ou atualizados. Estes padrões podem limitar a nossa visão e afetar a qualidade das escolhas que fazemos.
2. Fatores internos (psicológicos):
Emoções
As emoções têm um impacto direto nas nossas escolhas. Por exemplo, quando sentimos medo ou insegurança, é natural que optemos por caminhos mais seguros - como recusar uma proposta nova por receio de não estar à altura. Já quando estamos entusiasmados ou motivados, podemos aceitar desafios mais ousados - como dizer “sim” a uma mudança de carreira ou iniciar um projeto pessoal. Se estivermos emocionalmente equilibrados, conseguimos avaliar melhor as opções e lidar com as consequências das nossas decisões com mais serenidade.
Incerteza
A incerteza é uma das maiores barreiras na hora de decidir. Toda a escolha envolve algum grau de imprevisibilidade - e isso pode gerar hesitação ou até paralisar-nos. Por exemplo, mudar de emprego sem saber se será melhor do que o atual, ou escolher um prato num restaurante sem garantia de que vamos gostar. Mesmo em decisões mais simples, como aceitar um convite ou iniciar um novo projeto, há sempre um “e se?” que nos acompanha. Aceitar que não podemos controlar todos os resultados é essencial para desbloquear esse impasse entre agir ou hesitar. Quando reconhecemos a incerteza como parte natural da vida, conseguimos avançar com mais confiança - mesmo sem garantias sobre o resultado.
Aversão à perda
Escolher implica abrir mão de outras possibilidades — e isso pode ser desconfortável. Por exemplo, ao aceitar uma nova oportunidade de trabalho, podemos sentir receio de estar a deixar para trás colegas, estabilidade ou benefícios que valorizamos. Esse medo de “perder algo” pode gerar hesitação. Mas reconhecer que toda decisão envolve algum tipo de renúncia ajuda-nos a avançar com mais clareza e confiança.
Baixa autoestima
Quando duvidamos de nós mesmos, até as decisões mais simples podem parecer difíceis. Por exemplo, alguém com baixa autoestima pode adiar constantemente a inscrição num curso que deseja, por achar que “não vai conseguir acompanhar”. Este tipo de insegurança pode bloquear oportunidades e impedir o crescimento pessoal. Trabalhar a autoconfiança é essencial para desbloquear o processo de escolha.
Motivação
O que nos motiva influencia diretamente o que escolhemos. Se procuramos reconhecimento, podemos aceitar desafios que nos coloquem em destaque - como liderar uma equipa ou apresentar um projeto. Se a nossa motivação é evitar dor ou desconforto, podemos preferir caminhos mais seguros - como manter uma rotina conhecida, mesmo que já não nos realize. Conhecer as nossas motivações ajuda-nos a alinhar as decisões com o que realmente importa.
Traços de personalidade
A nossa personalidade também influencia a forma como decidimos. Por exemplo, pessoas mais abertas à experiência podem sentir-se confortáveis a viajar sozinhas ou a mudar de área profissional. Já quem valoriza a organização e a responsabilidade pode preferir decisões mais estruturadas - como planear cada passo antes de avançar. Não há um estilo melhor que outro. O importante é reconhecer o nosso perfil e usá-lo a nosso favor.
Paralisia existencial e vitimização
Às vezes, sentimos que não temos controlo sobre a nossa vida - e isso pode bloquear a capacidade de decidir. Por exemplo, alguém que acredita que “nada depende de si” pode evitar tomar decisões importantes, esperando que outros resolvam os seus problemas. Mas há sempre uma escolha possível. Assumir o papel de protagonista - em vez de vítima - é o primeiro passo para fazer a vida acontecer. Não existe uma fórmula mágica para garantir que uma decisão é “certa”. O que podemos fazer é escolher com consciência, assumindo a responsabilidade pelas nossas emoções, escolhas e circunstâncias.
E agora, como seguir em frente?
Decidir é um dos atos mais sofisticados que realizamos. Quando compreendemos como o nosso cérebro funciona, ganhamos ferramentas valiosas para fazer escolhas mais conscientes, alinhadas com os nossos valores e objetivos.
Este conhecimento é essencial para quem deseja evoluir - pessoalmente e profissionalmente - com mais clareza, confiança e estratégia.
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Referências
Cruz, S. (2023, junho 24). Tomada de decisões: O papel das emoções. Sara Cruz Clínica.
Faria, L. (2025, maio 07). Como o cérebro toma decisões. Meu Cérebro.
Perdigão, P. (2025). Unidade 5 – Neurociência das emoções: sentir, pensar e decidir. Neurociência Comportamental e Cognitiva. Instituto de Programação Neurolinguística (InPNL).
Sobreiro, J. & Magela, W. (2017, setembro 13). Decidir. Joana Sobreiro.
Sobreiro, J. (2023, junho 27). Perceção é projeção. Joana Sobreiro.
Imagem via Adobe Stock.
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