Querido diário
Antes de abrires estas páginas, deixa-me preparar-te: o que vais ler não é apenas a recolha de memórias antigas, mas um reencontro comigo mesma. Estas linhas são a porta entre a menina que eu fui e a mulher que sou. Aqui, cada entrada é uma pequena janela para o tempo – aquelas que guardaram quem eu estava a aprender a ser. Isto é mais do que um diário. É um regresso.
Escrever um diário pode ser muito mais do que guardar memórias. A escrita terapêutica é hoje reconhecida como uma ferramenta poderosa de autoconhecimento, regulação emocional e desenvolvimento pessoal.
O que cabe dentro de um diário
Querido diário.
Hoje, voltei a abrir-te – não um, mas vários de vocês. Fazia tantos anos que não vos folheava que, quando segurei o primeiro, senti aquele nervosinho miudinho, como quando encontramos um amigo da infância e não sabemos bem se ele ainda se lembra de nós.
A culpa foi da Sara, que me enviou uma fotografia de há 20 anos, da Queima das Fitas do curso de enfermagem dela. Logo depois, outra mensagem: uma página do diário dela, datada de 20-06-1992, onde o meu nome aparecia.
Ri-me sozinha. E a seguir rimo-nos juntas, quando ela me ligou para recordarmos as nossas aventuras. Estava à procura do passaporte para viajar e acabou por encontrar estas relíquias.
E bastou isso para eu regressar aos meus próprios cadernos, às minhas letras redondas, às minhas datas escritas com orgulho, e aos pensamentos que só tu, diário, conhecias.
Hoje percebi que um diário guarda tudo aquilo que não cabe noutro lugar. E que, afinal, ainda sei ler-me.
24 de dezembro de 1988: O Natal tal como eu o vivi
Querido diário, encontrei esta entrada tão longa que quase a consigo ver em cena. Escrevi:
"Hoje de manhã, fiquei em casa. Nessa manhã, a minha mãe e o meu irmão, tinham ido fazer algumas compras de Natal. Nesse dia, a minha família ia a casa do meu avô João. Mas, como a minha mãe perguntou quem queria ir com ela à tarde fazer o resto das compras de Natal, eu disse que ia com ela. Mas, eu disse ao meu pai para mandar um feliz Natal e um bom Ano-Novo ao meu avô. À tarde fomos fazer as compras de Natal e buscar os bolos. De seguida, fomos para casa. A minha mãe lavou a louça, fez o cabrito para o dia seguinte e fez também o bacalhau para hoje. Eu pus a mesa e fiz outras coisas, enfim ajudei a minha mãe. Passado algumas horas o meu pai e os meus irmãos chegaram. Depois, fomos a casa da minha prima São, entregamos-lhe as prendas e ela entregou as nossas prendas. Também estava lá a minha tia, o meu tio, a minha prima Cláudia, o meu primo Tiago e o meu primo Mário. Depois, viemos embora para casa, quando chegámos a casa, comemos o bacalhau e no fim de termos comido quando íamos na fruta chegou o meu primo Mário e o meu tio Mário. Passado alguns minutos eles foram-se embora. À meia-noite abrimos as prendas, elas eram lindas, era dia 25 de dezembro e não dia 24 de dezembro, deixou de ser a véspera de Natal e passou a ser Natal, dia 25 de dezembro. As prendas que eu recebi foram: um fato de treino, um par de meias, um camiseiro, isto é da minha tia Aurora. Uma moldura e uns lápis em pequenos e em grandes, isto da minha prima São. Um livro dos gatos persas, uma agenda da Mafalda, este diário, um mini piano, isto do meu Pai. Um casaco comprido vermelho, 3 pares de collants, um par de collants daquelas que são até aos joelhos, uma mala da Benetton, um conjunto da Benetton, um par de luvas com um pompom da Benetton, um par de sapatos, um estojo completo com: uma régua com lupa, uma máquina de fazer contas, um agrafador, uma borracha, um afia e 2 lápis, um par de pantufas, isto foi da minha Mãe. Uma almofada para pôr alfinetes e 1000 escudos, isto da minha avó. Um livro do “O Mistério do Gato Cómico” da minha irmã Cristina e uma caneta com um coisinho para segurar as folhas foi a Cristina da Música. Uma mola com uma joaninha da dona Clorinda. Um boneco a dizer “Oi ... Fofinha” da Teté."
Ao reler, quase senti outra vez o cheiro do cabrito no forno. Vi-me a ajudar a minha mãe, a pôr a mesa, a viver a véspera e o dia de Natal como se tudo fosse magia.
Nenhuma memória é tão fiel como a que o diário guarda.
19 de abril de 1989: O drama da negativa
Querido diário, hoje voltei a encontrar aquela entrada que, na altura, me fez chorar como se o mundo estivesse a acabar:
"Ontem, fiz um Teste a Ciências da Natureza que era Formativo, e hoje fomos a corrigi-lo e tive 45% negativa. Cheguei a casa e a minha mãe passado um bocado veio e ela estava muito bem disposta, e eu disse-lhe que queria falar com ela e eu mandei-lhe fechar a porta e ela fechou e desatei a chorar, porque tinha tido negativa, eu fiquei muito triste e a minha mãe disse que ela não estava triste, porque ela sabia que eu ia levantar a nota e eu prometi-lhe que sim. A partir deste dia agarrei-me a Ciências e ninguém agora me larga até fazer o teste. Eu estou muito triste."
E até registei a conversa com a minha mãe, palavra por palavra:
"— Ó Mãe, fecha a porta, se faz favor.
— Ó Mãe, eu tirei negativa, Mãe, a Ciências. Eu estudei eu sabia tudo, cheguei ao Teste e não sabia nada a minha sorte foi que o Teste era Formativo. (...)
— Ó Mãe, mas tu ficaste triste comigo, Mãe.
— Não fiquei, porque eu sei que tu vais levantar a nota.
— Ó Mãe, só que eu tive negativa, Mãe.
— Pronto, Filha, á dias que nos calham mal, mas pronto, já passou.
— Eu nem disse á professora, porque eu vi o Teste, eu fiquei assustada, eu fiquei nervosa. (...)
— Pronto, Filha, não chores mais, também? Vá pronto, já passou, a Mãe não está triste pronto, esquece o que aconteceu tá?"
Vejo-me ali, pequenina e tão exigente comigo.
Consigo imaginar-me ali, encostada à cama, a sentir o peso gigante de uma nota má.
E a minha mãe, com aquela calma que parecia abraçar.
1 de junho de 1989: O meu ritual secreto
Querido diário, também encontrei esta pérola simples:
"Hoje é o Dia Mundial da Criança e eu sinto-me muito feliz. E hoje à noite deixei os meus bilhetes do costume aos meus pais."
Eu deixava a cama aberta e bilhetes amorosos porque, muitas vezes, já não os via chegar. O amor de criança cabe sempre num gesto pequenino.
28 de junho de 1989: A conversa com a professora
Querido diário, aqui está mais uma memória inteira, preservada:
"Hoje na aula de Ciências da Natureza, no fim de todos os alunos saírem, eu e a Lá Salete, fomos pedir á professora o nome completo, a morada, o número de telefone e o dia dos seus anos. Depois, a professora perguntou-me:
— O seu pai, trabalha no hospital, não trabalha?
E eu respondi:
— Trabalha, professora.
— No hospital novo, não é?
— É.
— Ele é farmacêutico, não é?
— É professora, ele faz remédios.
— É que eu estou a tirar um curso de farmácia.
— Ai está, setora?
E depois, continuamos a falar, mas antes de começarmos a conversar, a professora perguntou-me quantos 5 eu iria ter, etc., mas a setora, falava comigo e estava sempre a sorrir. Depois, despedimo-nos desejando-lhe umas boas férias. E quando nos íamos embora, a Lá Salete disse que fosse bom nós ficarmos para o ano com a mesma professora, e eu disse que ela tinha sido uma boa professora e que eu gostava de ficar para o ano com ela. E a professora disse que gostava que para o ano, ela gostava de nos ter, e gostava de ter bons alunos como nós."
E o final que diz tudo:
"Hoje o meu dia foi tão bom!"
Vejo-me ali, de mochila às costas, a sentir-me especial só porque a professora fez conversa comigo.
29 de dezembro de 1989: Os planos mais improváveis
Querido diário, este foi o dia em que decidi o meu futuro, com a convicção de quem acreditava que tudo era possível – esta é uma das minhas passagens favoritas:
"Deve ser meia-noite ou mais. Contudo, estou a pensar no que hei-de fazer quando for mais crescida.
Primeiro, tiro o curso de modelo onde fico durante 2 anos, a trabalhar. Segundo, de seguida vou aprender a andar de cavalo. Terceiro, vou estudar computadores. Depois, vou tentar arranjar uma pessoa que eu conheça, que seja solteira e que goste de mim. E vou para a Austrália, onde quero ser uma agente secreta. Isto por um lado, porque por outro se calhar tenho outra profissão. No entanto, eu espero ser uma agente secreta. Logo se verá."
É impossível não sorrir.
Eu acreditava mesmo que podia ser tudo.
E que bonito que isso é.
30 de abril de 1993: O coração aos pulos
Querido diário, e claro ... chegou ele. O primeiro grande capítulo da adolescência.
"Pela primeira vez eu gosto de um rapaz. Ele chama-se Bruno Silva (alcunha Crânio), anda na minha turma, é alto, magro, veste-se bem, é bonito, tem catorze anos, é inteligente, super divertido e super simpático.
De momento ele sente-se desmoralizado, porque ele gosta muito, apaixonadamente de uma rapariga que eu conheço mais ou menos. Ela chama-se Vera e é muito simpática.
Há uns tempos para cá que eu e o Bruno nos temos andado amigos. Falamos bastante e ele anda sempre a fazer brincadeiras. (...)
Na hora de almoço, ele sentou-se no banco do jardim, e enquanto os outros jogavam basketball, eu perguntei-lhe se ele estava triste e ele disse-me que estava desmoralizado. Depois disse que precisava de fazer alguma coisa, porque aquela rapariga (Vera) estava a dar com ele em doido. Eu tentei ajudá-lo. Disse-lhe para ele dizer à Vera o que ele sentia por ela e, ele respondeu-me que já tinha falado com ela, mas que ela não queria nada com ele.
Sinceramente, queria que o Bruno fosse o meu primeiro namorado. Ele é tão parecido, igual ao meu príncipe encantado. Gosto muito dele, e adorava ser muuuuuuuito amiga dele."
E ao reler estas páginas, percebo como tudo mudava depressa naquela altura: bastaram uns meses para que já escrevesse sobre outro rapaz – e assim nasceu o capítulo em que o príncipe encantado deixou de ser o Bruno e passou a chamar-se Tó Zé.
Se não fosse o diário, eu já não me lembrava de metade destes detalhes. Mas ali, está tudo intacto.
21 de setembro de 1989: A despedida
Querido diário, esta despedida emocionou-me mais agora do que emocionou naquela altura:
"Eu estou a chegar ao fim com o meu diário. Tenho um novo, que é cor-de-rosa, comprei-o na praia. Eu espero que este diário não seja lido, e mesmo que alguém o ler, o estime, o guarde e espero que goste daquilo que li. Gostava que fosse a minha mãe e o meu pai a lê-lo. Mas, se ninguém o ler, não faz mal, porque é no Diário que está a nossa vida. Coisas, que só talvez nós sabemos. Adeus, meu querido e lindo Diário."
Eu não sabia, mas estava a escrever para mim mesma, anos depois.
O que descobri hoje
Querido diário, hoje percebi que um diário é o lugar onde cabe:
aquilo que sentíamos sem saber explicar;
aquilo que sonhávamos sem limites;
as conversas que nos fizeram brilhar;
os medos que nos pareciam gigantes;
os rituais só nossos;
as pequenas coisas que, afinal, foram enormes.
Um diário guarda quem fomos. E devolve-nos pedaços de nós que pensávamos ter perdido.
Um diário é a casa onde a nossa criança continua a morar. E hoje, ao reler tudo isto, abracei a minha.
E apercebi-me que a escrita sempre foi a minha forma mais genuína de estar no mundo – primeiro contigo, agora com os outros.
E agora que sou crescida ... ainda escrevo
Querido diário, hoje já não escrevo como escrevia aos 8 ou 10 anos. Mas continuo a escrever.
Continuo, porque percebi que a escrita sempre me organizou por dentro, sempre me deu chão. E continuo, porque preciso desse espaço onde as palavras me seguram.
Hoje escrevo:
para organizar o que sinto;
para perceber o que penso;
para celebrar o que conquisto;
para me acompanhar, tal como fizeste comigo em criança.
E escrevo de outras formas:
O Diário Emocional – onde coloco o que sinto, o que me inquieta, o quero compreender melhor.
O Diário de Conquistas – onde guardo os passos que dou, mesmo os pequenos, para treinar a mente e ver progresso em vez de crítica.
Uso estes dois diários nas minhas sessões de coaching neurolinguístico. Porque, tal como tu me acompanhavas, estes diários acompanham agora quem trabalha comigo. São cadernos onde cabe vida. Tal como tu.
Talvez a maior surpresa de hoje tenha sido esta: a menina que escrevia para se compreender continua aqui – só cresceu um bocadinho.
Talvez tenha começado tudo contigo, querido diário.
Tu foste a primeira vez em que me ouvi. E hoje ajudo outras pessoas a ouvirem-se também.
Um convite para quem também quer regressa a si
Querido diário, e a quem agora me lê ...
Depois de reler estas páginas – as antigas e as de hoje – percebo que evoluir nunca foi sobre correr, mas sobre regressar ao essencial. Sobre dar espaço ao que sentimos, ao que desejamos e ao que nos pede para nascer.
É por isso que, no meu caminho de adulta, nasceu também o Programa Evoluir com Propósito. Um espaço pensado para quem quer ganhar clareza, alinhar escolhas, desfazer nós internos e avançar com intenção.
Tal como este diário me ajudou a ouvir-me quando era criança, este programa ajuda-te a ouvir-te agora – com profundidade, acolhimento e direção.
Se sentes que está na hora de te reencontrares, de organizares a tua vida por dentro e de dares o próximo passo com significado, o convite está feito:
Vem evoluir comigo, ao teu ritmo e com propósito.
Talvez, tal como eu, descubras que tudo começa quando nos permitimos parar ... e escutar.
FAQ – Esclarece as tuas dúvidas
-
Estes “erros” foram mantidos de forma intencional – são parte da autenticidade da escrita da criança que eu fui. Em vez de corrigir, preservei-os, para manter a memória, o momento e a voz genuína daquela menina que estava a aprender a escrever o mundo como o sentia. São uma marca da minha história e mostram como a escrita evolui connosco.
-
É comum pensar-se que reler diários antigos só serve para recordar o passado.
E, claro, há memória, há nostalgia, há sorrisos – tudo isso faz parte.
Mas há também algo muito profundo: quando voltas às tuas palavras antigas, encontras partes de ti que ficaram adormecidas. De repente, percebes:
como sentias antes de aprender a disfarçar;
como sonhavas antes de te dizerem para ser “realista”;
como te emocionavas antes de te habituares a correr em piloto automático.
Muitas pessoas descrevem este reencontro como abrir uma caixa de fotografias que, além de mostrar imagens, devolve sensações. E é nesse reencontro que, muitas vezes, nasce clareza sobre o que precisas hoje, sobre o que tens adiado, sobre aquilo que ainda faz sentido.
-
Sim, e hoje talvez faça ainda mais sentido do que fazia na infância.
Escrever não é apenas registar o dia; é criar um espaço onde a tua vida abranda para te ouvires.
No meio de rotinas, responsabilidades e decisões que te atropelam, o diário torna-se um lugar seguro onde:
organizas o que sentes;
distingues o que é teu do que é expectativa;
encontras a coragem para fazer mudanças reais no teu dia a dia.
É no papel que muitas pessoas descobrem porque estão exaustas, porque evitam certas conversas, ou porque continuam a adiar o que desejam profundamente.
E é também no papel que surgem as soluções práticas – aquelas que depois se traduzem em ações concretas, como pedir ajuda, marcar uma conversa difícil, redefinir prioridades ou simplesmente recuperar espaço para respirar.
E tu, o que pensas sobre isto?
Fica bem. Com carinho.