Carta à minha irmã Cristina

Parabéns, mana!

Querida Cristina,

Hoje, é o teu dia. Como todos os anos, compro um bolo, acendo uma vela, mas não canto os parabéns.

Coloco o bolo na mesa da sala, junto de um ramo de flores, e deixo a vela acesa a iluminar a tua ausência e a tua presença. É o meu ritual, discreto e sentido, para te celebrar. Sem festa, sem vozes, só o silêncio cheio de significado, a sala perfumada de flores e a luz da vela a dançar, como se esperasse que entrasses pela porta a qualquer momento.

"Não há amigos como uma irmã,
Na tempestade e na bonança;
Para dar ânimo na tristeza,
Para nos trazer de novo ao caminho,
Para nos levantar quando caímos,
Para nos dar força quando precisamos."
— Christina Rossetti

Este ritual é a forma que encontrei de te manter perto, de te dar os parabéns à minha maneira, de agradecer por tudo o que fomos e somos. Sento-me à mesa, olho para o bolo e para as flores, e deixo que as memórias venham, uma a uma, como convidados invisíveis.

Três irmãos, dois continentes e uma história de recomeços

Somos três irmãos: tu, Cristina, a mais velha; o nosso irmão, o do meio; e eu, Rosa Margarete, a mais nova. Sete e quatro anos nos separam, mas a verdadeira distância mede-se em histórias, cumplicidades e algumas birras. Vocês nasceram em Luanda, eu em Portugal, e os nossos pais, como tantos outros, tiveram de recomeçar tudo do zero. A mãe, cabeleireira de mãos quentes e coração aberto; o pai, sempre com saudades de Angola. E tu, muitas vezes, com a missão de tomar conta de mim – missão que, sempre que podias, passavas à prima Cláudia, que preferia brincar a ficar com uma bebé no colo. (Compreendo, mana, também eu teria feito o mesmo!)

Dizem que, quando nasci, não fui propriamente recebida de braços abertos. Já havia um casal perfeito, e eu vim baralhar as contas. Não fui planeada, e tu achavas que já não vinha mais ninguém. Mas, como diz a sabedoria popular, “quem nasce, aparece” – e eu apareci, para te desafiar a seres irmã mais velha a sério.

"IRMÃS MAIS VELHAS ... são responsáveis pelas implicações. Recusam-se a emprestar-te as coisas delas. Começam as birras. Obrigam-te a andar depressa."
— Pam Brown

Eras mesmo assim, Cristina. Não gostavas nada que mexessem nas tuas coisas. E eu, claro, fazia questão de mexer. Afinal, qual é o papel de uma irmã mais nova senão testar os limites da paciência da mais velha?

Cristina em pequena: aventuras, birras e bichinhos

A mãe conta que, em pequena, eras um verdadeiro desafio à hora de comer e de dormir. Para adormeceres, era preciso andar de carro contigo às voltas, e depois, com todo o cuidado do mundo, levar-te para a cama. Muitas vezes, acordavas e berravas até adormeceres em cima do peito dos pais, a fazerem-te “bichinho”. Não podiam parar, senão era um berreiro pegado. Tinhas personalidade, desde cedo!

Quando finalmente adormecias, era como se a casa respirasse de alívio. Mas, no fundo, todos sabiam que aquela teimosia era só o prenúncio da mulher determinada que virias a ser. E eu, que cheguei depois, herdei o ritual do “bichinho”. Partilhávamos o quarto, cada uma na sua cama, mas ambas adorávamos aquele carinho. Alternávamos: hoje eu, amanhã tu. E, enquanto o Oceano Pacífico corria na rádio, a casa ficava em paz.

"E, quando crescem, escutam os teus problemas e ansiedades. E não contam a ninguém, a não ser que tu queiras.
Uma irmã mais velha é uma amiga e defensora.
Uma ouvinte, conspiradora, conselheira, partilha contigo as coisas boas.
E as tristezas também."
— Pam Brown

Da infância à adolescência: entre perfumes roubados e carros no campo

A nossa infância foi feita de pequenas cumplicidades e grandes trapalhadas. Eu e o nosso irmão éramos cúmplices de recreio e escola: ele entre os “grandes” do 12.º ano, eu a meio caminho, convocada para missões urgentes, como comprar o jornal Blitz ou uma cera milagrosa para domar o penteado. Nunca fiz parte do grupo de amigos dele, mas sempre fui a irmã disponível para os recados.

"Uma irmã mais nova é alguém para mandar à frente, experimentar se as pedras no lago são seguras. Alguém para usar como cobaia para ver se os trenós e os carrinhos de esferas funcionam bem."
— Pam Brown

Contigo, Cristina, as memórias são ainda mais saborosas. Lembro-me de roubar perfume das tuas prateleiras, a ver se ninguém dava por isso. O cheiro dos teus perfumes era o aroma da adolescência, da curiosidade, da vontade de crescer depressa. E as aventuras sobre rodas? Aquela vez em que, de repente, já íamos com o carro pelo meio do campo. Rimo-nos tanto que até hoje, só de lembrar, fico com vontade de rir. E aquela ultrapassagem épica à carroça, que durou tanto que quase virou crónica de humor. Eu era um perigo na estrada, mas tu, sempre paciente, fazias da condução uma comédia.

"Se a tua irmã está muito apressada para sair e não quer ser vista por ti, é porque está a usar a tua melhor camisola."
— Pam Brown

Quantas vezes te apanhei a usar a minha camisola preferida? E quantas vezes fui eu a usar a tua, às escondidas? A verdade é que, no fundo, sempre quis ser um bocadinho como tu.

Presentes, surpresas e diamantes-mandarim

Cristina, tinhas um talento especial para escolher presentes. No Natal e nos aniversários, eras tu quem comprava as prendas e depois fazíamos contas. Sabias sempre o que dar. Eu, pelo contrário, pergunto às pessoas o que querem e dou o que me pedem. Tu não. Demoravas imenso tempo a escolher e era sempre uma surpresa. Recebíamos não só a prenda, mas uma parte de ti.

No último aniversário que celebraste comigo, ofereceste-me dois pássaros diamante-mandarim. Tornaram-se um símbolo da nossa ligação. Quando já não ficaram comigo os originais, a tia trouxe outros, para que o chilrear continuasse. Ainda hoje, sempre que os escuto, a casa aprende novamente a abrir portas.

E sabes, mana, vejo-te tanto nos teus filhos. O Gonçalo herdou de ti o jeito e o cuidado a escolher prendas. Quando ele oferece alguma coisa, sinto o mesmo calor, a mesma atenção ao detalhe, o mesmo valor da família e da responsabilidade que tu sempre cultivaste. É como se, ao desembrulhar um presente do Gonçalo, desembrulhasse também um bocadinho de ti.

Já o Sebastião, esse, tem o teu riso. A mesma alegria contagiante, o mesmo “charme” – digamos assim! Basta ele entrar numa sala para a energia mudar, tal como tu fazias. É impossível não sorrir quando ele sorri, impossível não sentir que a tua luz continua acesa nele.

E há outro momento em que te encontro, vezes sem conta: quando vou às compras com eles. Adoro esses passeios, dão-me um prazer genuíno, igualzinho ao que sentia quando ia contigo. É como se, entre prateleiras e conversas, entre risos e escolhas, estivesses ali connosco, a partilhar sugestões, a rir das nossas indecisões, a viver connosco cada pequeno momento. Ir às compras com os teus filhos é, para mim, uma forma de continuar a ir às compras contigo.

"Uma irmã mais nova é alguém que pensa que sabes a resposta para quase tudo."
— Pam Brown

A irmã professora e artesã

Escolheste uma profissão que te permitiu dar-te aos outros. Foste professora do primeiro ciclo, apaixonada e dedicada. Os alunos adoravam-te, e eu adorava ir contigo à escola, ver-te ensinar com os olhos e com o coração. Quando deixaste de dar aulas, inventaste outro quadro: “As traquitanas da Ana artesanato”. Cada peça tua era uma surpresa – não só pelo objeto, mas porque no embrulho vinha também uma parte de ti, o teu carinho paciente, o olhar que adivinhava o destinatário.

Como escreveste na tua página de Facebook:

"Uma caixinha de surpresas pronta a ser descoberta em peças de artesanato originais e diferentes, feitas com muita dedicação e carinho."
— Ana Cristina Cardoso

E era mesmo assim. As peças eram originais e conseguias colocar nelas as características da pessoa que as ia receber. Tinhas um dom para ver além do óbvio, para transformar o simples em especial.

Entre fortalezas e fragilidades: o retrato da Cristina

Mana, eras determinada, versátil, criativa, organizada; tinhas bom gosto até quando te levantavas. Amavas a família com uma intensidade que não precisava de megafone. E sim, por vezes vivias muito para as necessidades dos teus – dos filhos, do marido – e o mundo podia acusar-te de ciúmes aqui e ali. Humanos somos; por isso mesmo, belos.

Eu, a mais nova, fui crescendo com a tal “beleza atrasada” (cabelo volumoso, óculos de garrafa, aparelho – o kit completo). Tu e o mano sempre foram bonitos e sociáveis, cercados de amigos e pretendentes. Eu preferia os cantos calmos, as conversas profundas, a companhia de quem já conhecia a sétima camada dos assuntos. Não pertencendo às mesmas rodas, pertencíamos ao mesmo mundo.

"Uma irmã mais velha é uma amiga e defensora.
Uma ouvinte, conspiradora, conselheira, partilha contigo as coisas boas.
E as tristezas também."
— Pam Brown

“Rosa, minha irmã Rosa”: a nossa história em livro

No livro “Rosa, minha irmã Rosa”, a narradora conta os segundos, ouve a campainha, a chave na fechadura, a porta que se abre ... “Rosa.” E eu, cada 27 de janeiro, volto a esse capítulo como quem volta à infância pela tua mão. Entre nós, a história tem sido precisamente essa: esperar, escutar, abrir, entrar. E rir. E chorar. E guardar.

"Acordar de manhã mais contente do que o rouxinol que canta desde o princípio do Verão na árvore em frente da janela do meu quarto.
Ficar mais um momento na cama porque não há escola e a minha irmã não tarda.
Olhar pelas tirinhas do estore mal fechado e imaginar o dia de sol que anda lá por fora.
Contar os minutos e os segundos que faltam para a Rosa entrar em casa.
Escutar os ruídos do elevador em movimento e acreditar sempre que é ela finalmente.
Pensar, pela primeira vez, que tenho pena que a avó Lídia não vá pegar na minha irmã ao colo, contar-lhe histórias, rir para ela, dar-lhe um dia pão e queijo à chegada da escola.
Sonhar todos os países onde hei de ir com ela. E ter mais força para enfrentar os primeiros-ministros aborrecidos que não querem obedecer às minhas ordens. Só porque a partir de agora eu já não estou sozinha, e é bom não estar sozinha nunca mais.
Ouvir mais uma vez o ruído do elevador. Desta vez o ruído certo.
Contar os segundos.
Ouvir a campainha.
A chave que se mete na fechadura.
A porta que se abre.
Rosa.
Rosa, minha irmã Rosa."
— Alice Vieira

Dedicatórias e presentes valiosos

Os livros que me ofereceste com dedicatórias são presentes valiosos, pedaços de ti que posso tocar. No giftbook “Irmãs”, escreveste:

"Mana, não tenho o jeito nem a profundidade que tu tens para escrever ... Neste livro, encontrei alguns pensamentos que eu partilho e por isso sublinhei-os. Apenas te quero dizer que te adoro e que tudo o que escreveste e me dizes, me conforta a alma ... Bjs"
— Ana Cristina Cardoso

E no final do livro:

"Obrigada, mana, por estares atenta, mesmo que eu não perceba ..."
— Ana Cristina Cardoso

Cada vez que leio estas palavras, sinto-te mais perto. Como se estivesses aqui, a sussurrar-me ao ouvido que tudo vai correr bem.

A luz que permanece

Cristina, hoje, 27 de janeiro, faço o que sempre fiz: preparo a casa, conto os segundos, ouço o elevador.

Acendo, em mim, o riso daquele campo onde o carro se foi meter sem aviso. Passo perfume – talvez um dos teus, invisível e teimoso. Pego num diamante-mandarim, deixo que me conte segredos. Abro o giftbook na página sublinhada por ti. E leio em voz alta. Para que a tua letra exista duas vezes: no papel e em mim.

A campainha toca. A chave entra na fechadura. A porta abre-se.

Cristina.

Cristina, minha irmã Cristina.

E é aí, no último parágrafo, que digo o que o coração já sabe: a tua luz apagou-se a 19 de outubro de 2014, aos 43 anos, depois de uma luta corajosa contra um cancro da mama. Não é um fim; é uma forma de presença. Porque cada 27 de janeiro continua a chegar pela porta do coração – e tu entras, mana, como sempre: com força, com ternura, com a tua mão a fazer “bichinho” na saudade.

Fica bem. Com carinho.

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