Doar um rim: histórias reais e desafios do transplante renal
No dia 11 de outubro assinala-se o Dia Europeu da Doação e Transplantação de Órgãos. Para marcar esta data, partilhamos contigo um artigo que vai além da informação técnica: trazemos também o testemunho pessoal de quem viveu a experiência da dádiva de um rim.
Mais do que esclarecer dúvidas sobre o processo de doação e transplante renal, esta partilha pretende inspirar escolhas conscientes, promover a empatia e reforçar a importância da solidariedade em saúde.
Transplantes renais em Portugal: números que inspiram confiança na doação em vida
Em 2024, Portugal realizou 932 transplantes, com o rim a manter-se como o órgão mais transplantado – um reflexo claro da sua importância na vida dos doentes renais.
Dos 538 transplantes renais, 71 foram realizados com dador vivo, evidenciando um crescimento sustentado desta modalidade nos últimos anos. Segundo a Coordenação Nacional de Transplantação, o transplante renal com dador vivo representa 13 % da atividade total nesta área, destacando-se pela possibilidade de doação em vida, que permite salvar vidas sem esperar por um dador falecido.
Estes números mostram que, apesar dos desafios, há uma crescente disponibilidade e confiança na doação em vida, beneficiando milhares de pessoas e as suas famílias. É um sinal de esperança e de evolução na forma como encaramos a solidariedade em saúde.
História do transplante renal em Portugal: da inovação à esperança
O primeiro transplante renal com dador vivo em Portugal aconteceu em 1969, conduzido pelo Professor Linhares Furtado em Coimbra – um marco pioneiro na medicina nacional.
Desde então, o país tem registado avanços significativos, especialmente desde 2015, impulsionados por campanhas de sensibilização e pela evolução das técnicas médicas, que hoje permitem realizar operações outrora impossíveis.
Atualmente, existem sete unidades de transplante renal, sendo que seis delas têm programas de doação em vida. Este dado reflete a excelência, dedicação e inovação dos profissionais de saúde que, diariamente, se reinventam para responder às necessidades dos doentes renais com rigor científico e humanidade. Cada transplante é uma oportunidade para transformar uma vida - ou várias.
Em 2025, no âmbito do Dia Mundial do Rim, a Direção-Geral da Saúde lançou o documento “Percurso de Cuidados Integrados para a Pessoa com Doença Renal Crónica” no Serviço Nacional de Saúde. Este guia visa reforçar a prevenção, o diagnóstico precoce e o tratamento da doença renal crónica, promovendo uma abordagem integrada ao longo de todas as fases da doença. O objetivo é claro: melhorar os cuidados prestados e a qualidade de vida dos doentes.
Doar um rim: qualidade de vida e (novas) oportunidades
A doença renal crónica afeta profundamente não só o doente, mas também a sua família. A diálise, embora essencial para tratar complicações, não cura a doença e impõe limitações significativas à qualidade de vida.
Por outro lado, o transplante renal oferece uma melhoria substancial do bem-estar e aumento dos anos de vida, permitindo aos pacientes retomar atividades com mais autonomia e liberdade.
Receber um rim de um familiar ou amigo pode eliminar anos de espera por um dador falecido, reduzindo o impacto emocional e físico da doença. Esta modalidade de doação em vida não só aumenta as hipóteses de sucesso, como representa uma ligação emocional única entre dador e recetor – uma verdadeira transformação para ambos.
Doar um rim: preparação, cuidados e escolhas conscientes
A decisão de doar um rim vai muito além da boa vontade ou de um “bom coração”. É um processo que exige compatibilidade imunológica, boa saúde física e emocional do dador, e uma avaliação médica rigorosa para garantir a segurança de ambos – dador e recetor.
A cirurgia envolve riscos associados à anestesia, à remoção do órgão e a possíveis complicações pós-operatórias, como infeções ou dor. No entanto, uma avaliação clínica detalhada é feita previamente para minimizar esses riscos.
É essencial que o dador tenha liberdade total para mudar de decisão a qualquer momento, sem qualquer tipo de pressão externa. Ter dúvidas, hesitar ou repensar a decisão faz parte do processo – é normal, humano e legítimo.
Ninguém deve sentir-se envergonhado por ter dúvidas. O tempo para refletir é fundamental, e por isso, todo o processo é acompanhado por uma equipa multidisciplinar composta por médicos, enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais. Todas as questões são válidas e devem ser esclarecidas com empatia e profissionalismo.
Portugal tem metas definidas na Estratégia Nacional para a Doença Renal Crónica 2023-2026, que incluem:
Aumentar o número de transplantes;
Maximizar o acesso a dadores falecidos e vivos;
Reduzir induções não planeadas de diálise;
Garantir que mais de 80 % das cirurgias de acesso vascular sejam realizadas dentro dos tempos de resposta garantidos.
Estas políticas asseguram que o transplante seja eficaz, seguro e alinhado com uma visão integrada de saúde, centrada na pessoa.
No próximo ponto, vamos partilhar conselhos reais de quem viveu este processo enquanto dadora – uma perspetiva única que complementa a informação com emoção e experiência.
Doar um rim: a minha história, a minha escolha
Este artigo não é apenas informativo – é uma partilha. Ao longo do tempo, muitas pessoas me têm perguntado sobre a decisão de doar um rim. E sei que essa pergunta não tem uma resposta simples. Por isso, decidi contar a minha história. Não para convencer ninguém, mas para ajudar quem está a ponderar esta escolha e fazê-lo com mais consciência e serenidade.
“A decisão de doar um rim é, na sua essência, solitária e profundamente pessoal.”
Tenho sido procurada por pessoas que enfrentam o dilema de serem ou não dadoras. É natural que, em momentos assim, desejemos que alguém nos diga o que fazer. Mas essa resposta só pode ser dada por nós próprios. Ninguém mais a pode dar. E é preciso avançar com segurança e certeza do gesto.
Não estou aqui para dizer o que cada pessoa deve ou não fazer. Posso, sim, partilhar a minha experiência – mas é importante sublinhar que se trata da minha história. Cada pessoa terá a sua própria história, com desafios e motivações únicas.
Deixo apenas alguns pontos de reflexão que me ajudaram e que podem ajudar quem está a ponderar esta decisão. Talvez sirvam de apoio no caminho para uma escolha consciente e serena.
Há vários fatores a pesar na tomada de decisão. Alguns deles trazem receios e medos – e é normal que assim seja. Estamos a falar de uma decisão que envolve algo muito sério e que pode fazer toda a diferença na vida dos intervenientes.
Um dos maiores “fantasmas” que paira sobre a decisão é o medo da rejeição do órgão transplantado. Se esse risco não existisse, talvez a escolha fosse mais simples. É uma preocupação que surge frequentemente: “E se, depois de tudo isto, acabamos por perder o rim?”
Este receio é legítimo e compreensível. A possibilidade de rejeição levanta dúvidas, inquietações e exige uma reflexão profunda. Mas é precisamente por isso que a decisão deve ser tomada com informação, segurança e consciência. Não se trata apenas de querer ajudar – trata-se de compreender os riscos e as implicações reais do gesto.
Se estás a ponderar esta decisão, dá-te tempo. Faz perguntas. Procura apoio. E lembra-te: todas as dúvidas são válidas. A tua história será única – e merece ser respeitada em cada passo.
Continua na Parte 2: A minha história, contada na primeira pessoa.
Depois de tantos dados, desafios e decisões que envolvem a doação de um rim, quero partilhar contigo a minha própria experiência. Nesta segunda parte, convido-te a conhecer o meu percurso e o do Paulo – uma história real, feita de amor, coragem e escolhas profundas. Porque, por detrás de cada número, há sempre uma vida. E esta é a nossa.
Referências
Council of Europe. (s.d.) European Day for Organ, Tissue and Cell Donation. European Directorate for the Quality of Medicines & HealthCare.
Gaibino, N. (2025, maio 12). Apresentação Nacional dos Dados – Atividade de Doação e Transplantação 2024. Instituto Português do Sangue e da Transplantação.
Lusa. (2025, março 13). Transplante com dador vivo de rim aumenta e representou 12% da transplantação renal em 2024. RTP Notícias.
Divisão de Planeamento e Melhoria da Qualidade – Departamento da Qualidade na Saúde – Direção-Geral da Saúde. (2025, março). Percurso de Cuidados Integrados para Pessoa com Doença Renal Crónica. ANADIAL.
Farinha, A. (s.d.). Doar um rim – perguntas e respostas. Pelo Rim.
Despacho n.º 3391/2025 do Gabinete da Secretária de Estado da Saúde. (2025). Diário da República n.º 53/2025, Série II de 2025-03-17.
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Fica bem. Com carinho.