Doar um rim: a minha história, a minha escolha

Depois de explorarmos os números, os desafios e as decisões envolvidas na doação de um rim na Parte 1 deste artigo, chegou o momento de conhecer uma história real que dá vida a tudo o que foi partilhado até agora.

Nesta segunda parte, mergulhamos no testemunho de Margarete, que decidiu doar um rim ao seu marido, Paulo. Através das suas palavras, descobrimos os dilemas, as emoções e as reflexões que acompanham uma decisão tão íntima e transformadora. Uma história de amor, coragem e escolha — contada na primeira pessoa.

Doar um rim: A minha história, a minha escolha

Este artigo não é apenas informativo – é uma partilha. Ao longo do tempo, muitas pessoas me têm perguntado sobre a decisão de doar um rim. E sei que essa pergunta não tem uma resposta simples. Por isso, decidi contar a minha história. Não para convencer ninguém, mas para ajudar quem está a ponderar esta escolha e fazê-lo com mais consciência e serenidade.

A decisão de doar um rim é, na sua essência, solitária e profundamente pessoal.

Tenho sido procurada por pessoas que enfrentam o dilema de serem ou não dadoras. É natural que, em momentos assim, desejemos que alguém nos diga o que fazer. Mas essa resposta só pode ser dada por nós próprios. Ninguém mais a pode dar. E é preciso avançar com segurança e certeza do gesto.

Não estou aqui para dizer o que cada pessoa deve ou não fazer. Posso, sim, partilhar a minha experiência – mas é importante sublinhar que se trata da minha história. Cada pessoa terá a sua própria história, com desafios e motivações únicas.

Deixo apenas alguns pontos de reflexão que me ajudaram e que podem ajudar quem está a ponderar esta decisão. Talvez sirvam de apoio no caminho para uma escolha consciente e serena.

Há vários fatores a pesar na tomada de decisão. Alguns deles trazem receios e medos – e é normal que assim seja. Estamos a falar de uma decisão que envolve algo muito sério e que pode fazer toda a diferença na vida dos intervenientes.

Um dos maiores “fantasmas” que paira sobre a decisão é o medo da rejeição do órgão transplantado. Se esse risco não existisse, talvez a escolha fosse mais simples. É uma preocupação que surge frequentemente: “E se, depois de tudo isto, acabamos por perder o rim?”

Este receio é legítimo e compreensível. A possibilidade de rejeição levanta dúvidas, inquietações e exige uma reflexão profunda. Mas é precisamente por isso que a decisão deve ser tomada com informação, segurança e consciência. Não se trata apenas de querer ajudar – trata-se de compreender os riscos e as implicações reais do gesto.

Se estás a ponderar esta decisão, dá-te tempo. Faz perguntas. Procura apoio. E lembra-te: todas as dúvidas são válidas. A tua história será única – e merece ser respeitada em cada passo.

O caso da Margarete e do Paulo: Uma história de amor, coragem e escolha

Quando o Paulo, o meu marido, foi diagnosticado com doença renal crónica, eu sabia exatamente o que nos esperava. A minha avó tinha enfrentado a mesma doença nos últimos anos de vida e, durante o meu curso fiz voluntariado no Hospital Universitário de Coimbra, onde acompanhei uma senhora com cerca de quarenta anos que também vivia com esta condição. Por isso, já tinha refletido sobre a possibilidade de doar um rim. Disse ao Paulo, sem hesitar, que avançaria com a dádiva quando fosse necessário. Não queria que ele passasse pelo sofrimento da hemodiálise – embora tenha acabado por acontecer.

O Paulo iniciou hemodiálise no Dia dos Namorados, a 14 de fevereiro de 2012. Foram dez meses de tratamento, até ao dia 4 de dezembro. No dia seguinte, a 5 de dezembro, realizou-se o transplante renal. Desde então, não voltou a fazer diálise.

Apesar de ter sempre sentido clareza na minha decisão, reconheço que este momento é um marco. Nem sempre o processo é linear. Somos influenciados por opiniões externas – familiares, amigos – e há questões que precisam de ser discutidas com profissionais especializados. Por isso, acredito que esta decisão deve ser informada, livre e profundamente pessoal.

A verdade é que, desde o início, senti uma paz interior muito grande. Era como se fosse algo que simplesmente tinha de acontecer. Nunca hesitei. Para mim, teria sido mais difícil lidar com a impossibilidade de avançar do que com os desafios que vieram depois.

Foi um percurso exigente para todos nós. Tal como acontece com qualquer doença crónica, esta condição interfere com todos os aspetos da vida. E quando falamos de diálise - seja hemodiálise ou peritoneal - o peso torna-se ainda maior. Apesar de ser um tratamento que “dá vida”, também a consome. Não há pausas, não há dias em que se possa simplesmente dizer “hoje, não me dá jeito”. É uma rotina sem fim, com riscos e efeitos difíceis de suportar.

É por isso que o transplante representa muito mais do que uma alternativa médica – é uma libertação. É devolver vida a quem vive preso a um tratamento constante.

Naturalmente, dentro da família houve opiniões diferentes. Houve quem concordasse e quem não concordasse, especialmente do meu lado. E isso é compreensível. Cada pessoa vê esta decisão à sua maneira. Mas no meu caso, foi uma escolha feita com o coração, com consciência e com a certeza de que era o caminho certo.

O impacto da doença renal na nossa vida: Margarete e Paulo

A doença do Paulo e a decisão de doar-lhe um rim tiveram um impacto profundo na nossa vida – e, em particular, na nossa reflexão sobre ter ou não ter filhos.

Durante alguns anos, tentámos engravidar, mas sem sucesso. Quando surgiu a possibilidade do transplante a partir de dador vivo, esta questão ganhou ainda mais peso. A origem da doença renal crónica do Paulo continua por esclarecer, mas há suspeitas de uma componente hereditária – tanto a mãe como a avó tiveram problemas renais, embora nunca tenham sido devidamente investigadas.

Foi um tema que abordámos nas consultas de dador vivo. E, após muita ponderação, tomámos uma decisão difícil, mas consciente: não ter filhos biológicos. Sabíamos que havia a probabilidade de os nossos filhos herdarem a mesma condição e, perante esse risco, optámos por não avançar. Foi uma escolha feita com o coração apertado, mas com a serenidade de quem quer proteger o futuro de alguém que ainda nem nasceu.

A doação e o transplante trouxeram uma nova dinâmica à nossa vida. É verdade que existem passos semelhantes em todos os processos de transplantação, mas a forma como cada doente e cada dador vivenciam esse percurso é única. No nosso caso, foi um caminho de muita escuta, reflexão e amor.

Da diálise ao transplante: A dádiva que mudou as nossas vidas

Para a maioria das pessoas que passa pela diálise, o transplante é uma bênção. Não se trata de uma cura, mas representa uma grande oportunidade de melhorar a qualidade de vida. Estando em condições físicas e psicológicas para avançar como dadora, e tendo presenciado o esforço heroico feito pelo Paulo ao longo da sua doença para ter uma vida o mais “normal” possível, senti que tinha de lhe dar essa oportunidade. Ele não só a merecia, como tinha a certeza de que ia estimar e cuidar muito bem do meu rim.

O Paulo foi – e continua a ser - um doente muito cumpridor. Sempre se esforçou para se adaptar e cumprir os requisitos de cada fase do processo. Embora nunca me tenha dito diretamente, sei que sentia uma tristeza enorme por ter esta doença. Até hoje, não sei explicar como conseguia trabalhar todos os dias, mas acredito que, em parte, a sua atividade profissional foi determinante para suportar tudo. Isso e o facto de me ter a mim, sempre presente, a dar-lhe força.

Nunca demonstrei pena, nem o protegi em excesso. Deixava-o ser o mais autónomo possível. Acompanhava-o em todas as consultas, mas era ele quem geria as datas dos exames, preparava o lanche e conduzia sozinho para os tratamentos. Cheguei a fazer-lhe algumas surpresas, mas respeitava sempre o seu desejo de sentir que tinha o controlo.

O transplante, mais do que uma possibilidade que a ciência nos dá, é um momento que traz novas experiências emocionais e psicológicas. Por um lado, os riscos e os receios que naturalmente surgem; por outro, a sensação de que uma nova ligação emocional pode ser criada - e a gratidão pela possibilidade de uma nova vida.

Tenho um respeito profundo por esta doença – e por tudo o que ela implica. Respeito a complexidade e os riscos das duas cirurgias: a minha e a do Paulo. Independentemente de o transplante ser feito a partir de um dador vivo ou falecido, há algo que permanece: uma ligação para sempre. Porque quem recebe um órgão não recebe apenas um pedaço de corpo – recebe uma parte de outra pessoa. E com ela, vem também uma carga emocional imensa.

Para nós, o transplante foi – e continua a ser – um verdadeiro milagre. Uma dádiva imensa, pela qual somos profundamente gratos.

Confesso que, depois da dádiva, houve momentos em que “senti falta” do meu rim. É uma sensação estranha, como se algo me faltasse. Por vezes, até me causa algum desconforto. Mas, ainda assim, até hoje, sinto que foi uma das melhores decisões da minha vida – uma decisão com a qual me sinto em paz.

Alguns apontamentos sobre a decisão de doar um rim

Além de tudo o que já partilhei, deixo aqui alguns apontamentos que considero importantes para quem leu a minha história e está a ponderar tornar-se dador. São reflexões que me acompanharam ao longo do processo e que, acredito, podem ajudar outros a encontrar clareza.

Esta é a minha história - a tua pode ser diferente

A decisão de doar um rim é, na sua essência, profundamente individual e solitária. Não deve ser influenciada por opiniões externas, nem por aquilo que os outros fariam ou esperariam que fizéssemos. No fim, é o dador que viverá com um só rim – e com tudo o que isso implica. Por isso, é essencial olhar para dentro, escutar-se com honestidade e perceber o que se quer verdadeiramente fazer.

Esclarece todas as dúvidas e dissipa os receios

Procura toda a informação de que precisas para tomar uma decisão informada e consciente. Se não estiveres seguro e confortável com a dádiva, não avances – mesmo que estejas prestes a entrar no bloco operatório. Recordo-me da Dra. Ana Pena, a cirurgiã responsável pela minha cirurgia, me dizer algo que me tranquilizou muito: “Se, no dia da cirurgia, decidires não avançar, o processo para ali, sem julgamentos nem pressões.”

Lê tudo com atenção

A informação fornecida é extensa e, por vezes, difícil de digerir. Para mim, o mais duro foi ler sobre o risco de rejeição do órgão e os riscos associados à minha própria cirurgia. Mas é fundamental conhecer todos os cenários.

A dádiva não é moeda de troca

A doação tem de ser um gesto puramente altruísta. Não pode ser usada como forma de garantir afeto, gratidão ou compromisso. Um pai não deve doar um rim ao filho esperando que este cuide dele para sempre. Um cônjuge não deve doar esperando que o outro fique por gratidão. A dádiva cria uma ligação especial, sim – mas essa ligação deve ser livre de expectativas. “Não construas fantasias em torno deste processo.” O recetor tem, sim, a responsabilidade de cuidar bem essa oportunidade, mas a motivação do dador deve ser genuína.

Não há deveres nem obrigações

Muitas vezes, surgem sentimentos inconscientes de “dever” ou “obrigação” – a irmã que sente que tem de doar ao irmão, a esposa que acha que deve doar ao marido. Mas esta decisão não pode nascer da pressão emocional. Tem de vir de um lugar de convicção e serenidade.

Faz a doação pelas razões certas

Se a decisão for tomada pelas razões erradas, o risco de arrependimento e desilusão é real – e pode ser difícil de gerir ao longo da vida. Cada pessoa tem os seus motivos, e dizer “sim” ou “não” são decisões igualmente válidas, desde que sejam autênticas.

Amar não é sinónimo de conseguir

Podemos amar profundamente alguém e, ainda assim, não nos sentirmos capazes de doar. E está tudo bem com isso. Não se trata apenas da cirurgia em si, mas da capacidade de viver com essa decisão em paz, com a consciência tranquila de que fizemos o que era certo para nós.

Depois do transplante, pode haver um período de adaptação

É normal que, após a cirurgia, dador e recetor se sintam “diferentes”. O dador pode sentir que algo lhe falta; o recetor pode deixar de se sentir “doente”. Ambos precisam de tempo para se adaptarem a esta nova realidade – e isso faz parte do processo.

Prepara-te para a logística do dia a dia

Analisa bem a tua situação familiar, profissional e financeira. Se forem um casal e ambos trabalharem, saibam que estarão os dois de baixa médica durante algum tempo. É importante garantir apoio para as tarefas do dia a dia: conduzir, fazer compras, cuidar da casa, levar os filhos à escola. Lembro-me de arrastar a bacia da roupa com os pés para não ter de a levantar – pequenos gestos que exigem planeamento.

Um agradecimento especial

Ao Serviço Nacional de Saúde e à Unidade de Transplantação do Hospital Curry Cabral, o nosso profundo reconhecimento. Graças a eles, os doentes têm acesso universal a tratamentos e cirurgias de enorme complexidade e impacto.

Cuida de ti

Faz uma alimentação equilibrada, bebe água, cuida do teu corpo, dos teus pensamentos e das tuas emoções. Ri-te com vontade, brinca com o que é sério, deixa a criança interior vir ao de cima. O mundo já é exigente o suficiente – sê gentil contigo, sem rigidez nem culpas.

Conhece outras histórias

No site Pelo Rim, encontras testemunhos de pessoas que passaram por transplantes renais – histórias de superação, esperança, dúvidas e decisões difíceis. Porque ouvir outras vozes pode ajudar-nos a encontrar a nossa.

A ciência e a humanidade lado a lado

A doação de rim é um exemplo claro de como a ciência, a experiência pessoal e as políticas de saúde podem convergir para criar oportunidades reais de vida. Em Portugal, temos assistido a avanços notáveis na prática de transplantes renais, com equipas médicas altamente qualificadas e estruturadas que funcionam com excelência. Mas, no fim, são os dadores que tornam tudo isto possível.

A minha história é apenas uma entre muitas. E se há algo que aprendi ao longo deste percurso é que doar um rim é um gesto de coragem, consciência e altruísmo. É uma decisão que muda vidas – não só a de quem recebe, mas também a de quem dá. É uma marca permanente de esperança e humanidade.

Espero que este artigo possa ajudar, de alguma forma, todos aqueles que ponderam ser potenciais dadores. Que possa apaziguar corações, esclarecer dúvidas e trazer serenidade a quem está a atravessar este processo. Porque, no fim, doar é também cuidar – e cuidar é, talvez, o maior ato de amor que podemos oferecer.

E tu, o que pensas sobre isto?

Fica bem. Com carinho.

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