Luto por um Animal de Estimação: A História da Boneca

Perder um animal de estimação pode deixar uma ausência difícil de explicar. O luto de um animal de estimação nasce precisamente dessa ligação construída ao longo dos anos, entre rotinas, cuidado, companhia e amor. Foi a morte da Boneca que me ensinou o verdadeiro significado dessa perda.

Ao longo da minha vida, os animais sempre fizeram parte da família.

Cresci rodeada de cães e gatos. O primeiro cão de que me lembro chamava-se Lulu. Quando o conheci já ele era muito velhote e com um temperamento difícil, mas ficou guardado nas minhas memórias de infância.

Depois dele, chegaram outros animais.

Cada um trouxe a sua personalidade, os seus hábitos e a especial forma de ocupar um lugar na minha família.

Mas, quando penso no primeiro animal de companhia com quem construí uma história de vida, penso imediatamente na Boneca.

Foi ela quem me acompanhou durante a adolescência.

Foi ela que me ensinou, ainda eu era criança, o significado de cuidar, de assumir responsabilidades e de amar de uma forma inexplicável.

Por essa razão ela está presente, vezes sem conta, nas páginas do meu diário.

O que escrevo nasce da vontade de recordar a Boneca pela vida que viveu, pelas experiências que partilhámos juntas, pelas memórias que me deixou e pela grande influência que continua a ter em mim, tantos anos depois.

Só muito mais tarde compreendi que a história da Boneca também me iria ensinar a lidar com a perda, a saudade e com aquilo a que hoje chamamos luto animal de estimação.

Acredito que homenagear alguém que amamos, passa também por celebrar aquilo que essa presença trouxe à nossa vida.

E esta é a história da Boneca, uma Cocker Spaniel, que entrou na minha vida em 1989, quando eu tinha apenas 11 anos.

Decidi transcrever, palavra por palavra, exatamente como escrevi no meu diário de infância. Sem filtros, sem correções ortográficas, mantendo viva a voz daquela menina de 11 anos que descobria o amor incondicional.

Estas páginas contam a história da Boneca, e da criança que cresceu ao lado dela.

 

Luto por um animal de estimação: porque a dor é tão real

Para algumas pessoas era “só um cão”

A perda de um animal de estimação pode trazer uma dor profunda.

O luto por um animal de estimação nasce também da relação construída ao longo do tempo: das rotinas partilhadas, dos cuidados, das brincadeiras e da presença constante daquele animal na nossa vida.

Para quem observa esta relação de fora, pode parecer estranho compreender a intensidade dessa ausência. Afinal, vê um cão, um gato ou outro companheiro de quatro patas.

Contudo, quem vive essa ligação vê e sente os anos em partilha, as rotinas, as brincadeiras e sem dúvida a presença que se tornou parte da vida.

Sente as manhãs em que aquele animal está à espera.

Vive os momentos em que faz companhia, traz conforto e alegria.

Aguenta os dias difíceis, porque a sua presença ajuda a tornar tudo mais suportável.

É por isso que a despedida pode deixar um vazio tão grande.

Quando existe amor, existe também saudade.

"Os animais com quem partilhamos as nossas vidas não são «apenas animais de estimação». São amigos, companheiros de vida, até mesmo almas gémeas."
— Millie Jacobs

Foi precisamente o que aconteceu comigo.

Hoje quero falar da Boneca. A minha primeira cadela.

A companheira que entrou na minha vida e que, de muitas formas, continua presente nela.

 

O dia em que a Boneca chegou

Muitas memórias permanecem vivas durante décadas. Basta pensarmos nelas para voltarmos a sentir a emoção e a expectativa de que algo especial está prestes a acontecer.

Foi assim que me senti quando soube que ia ter a Boneca.

Felizmente, o meu diário guardou esse momento com um rigor que a memória, tantos anos depois, dificilmente conseguiria alcançar.

A 16 de julho de 1989 escrevi:

"Hoje a mulher do Director da Tupperware, telefonou a dizer que nos ia dar uma cadelinha de luxo. Quando a minha mãe me disse eu fiquei tão feliz!
Hoje foi a melhor notícia em toda a minha vida."
— Margarete Cardoso

Ao reler esta frase, mais de três décadas depois, sorrio e compreendo que aquela criança tinha razão.

A chegada da Boneca iria realmente mudar a minha vida.

"Hoje fiz gelatina, escrevi o meu diário e a minha agenda da Mafalda, vi televisão, etc.
Hoje também estive a fazer a Cédula Pessoal, o Bilhete de Vacinas e o que a cadelinha tinha de fazer e o que eu tinha de comprar.
Ela vai-se chamar Boneca.
O nome «Boneca», faz-me lembrar a minha gatinha que tinha o mesmo nome.
Eu vou cuidar muito bem da cadela.
Eu estou desejosa para a ver!"
— Margarete Cardoso

É engraçado como ao reler estas palavras, observo uma criança profundamente ligada a uma cadela que ainda nem conhecia.

Testemunho uma certeza que continua presente na minha vida, os animais são família.

No artigo O Papel de um Animal de Estimação na Tua Vida refiro que:

"Um animal de estimação transforma os dias de forma discreta. Está presente quando tudo corre bem e continua ao teu lado quando a vida te assusta. Mostra-te o significado da lealdade."
— Margarete Cardoso

Naquele momento, eu ainda estava a descobrir a dimensão dessa ligação. A Boneca passaria a acompanhar-me durante muitos anos e a ocupar um lugar especial na minha vida.

 

O grande dia

Chegou finalmente o momento que eu aguardava com tanta expectativa:

"Hoje chegou o meu grande dia. O dia de ir buscar a cadelinha."
— Margarete Cardoso

Aquela pequena frase transmitia toda a ansiedade de uma criança à espera de conhecer a sua futura companheira.

Lembro-me de estar na feira com a minha família, mas a minha atenção estava completamente concentrada na Boneca. Tudo o resto parecia secundário.

Eu queria vê-la.

O meu diário revela bem o momento do dia 17 de julho de 1989:

"Fomos jantar com os senhores na feira, andamos por lá, mas eu só queria ver a cadela, não me interessava mais nada e a minha mãe sabia-o, toda a gente divertia-se, diziam para eu ir ali e acolá, andar em qualquer coisa, mas nunca aceitei."
— Margarete Cardoso

Hoje sorrio ao reler estas palavras.

A espera por um animal de companhia que vai entrar na nossa vida tem uma forma muito própria de ocupar os pensamentos. O tempo ganha outro ritmo e cada minuto aproxima-nos daquele primeiro encontro.

Até que chega o momento.

 

O primeiro encontro

Quando finalmente vi a Boneca, toda aquela espera ganhou sentido.

Foi o início de uma história que iria acompanhar-me durante muitos anos.

"Depois, fomos para casa dos senhores e quando eu vi a cadela, fiquei contentíssima.
Ela era pequenina, ela era castanha clara às manchas brancas, a outra cadela era preta com uma mancha branca no peito, a outra era preta com manchas brancas e a mãe era preta com manchas brancas, eram todas cadelas e a minha cadela era a única castanha, porque saiu ao pai. Depois, viemos embora e a senhora deu-nos pedigree pal e Nestum para a cadela comer.
Depois, vínhamos no carro e a cadela dormia.
Chegámos a casa e a minha irmã foi dormir no quarto do meu irmão e eu e o meu irmão na sala, porque a cadela chorava, as irmãs dela eram para dar e a mãe ficava com os senhores, porque eles moravam num apartamento e não tinham espaço.
Tadinha da mãe devia de ficar tão triste por as suas filhas se terem separado dela e as filhas também, por se terem separado da mãe.
Hoje foi um dia muito feliz para mim."
— Margarete Cardoso

Este excerto emociona-me particularmente.

Pelas palavras daquela menina de 11 anos, além de conseguir sentir a felicidade daquele dia, lembro-me da atenção que já dedicava à Boneca e à família dela. Até nos primeiros momentos, houve espaço para reparar nos pormenores, imaginar o que a mãe e as irmãs da Boneca poderiam sentir e guardar tudo aquilo como uma memória especial.

É nessa forma de criar empatia que encontro a explicação por que algumas perdas deixam marcas tão profundas.

Crescer ao lado de um animal de companhia

A chegada da Boneca trouxe uma nova rotina.

Ela passou a estar presente nas brincadeiras, nos momentos em casa, nos passeios na rua, nas idas ao veterinário e em tantos outros episódios que, na altura, pareciam fazer parte de um dia normal.

Sem eu dar por isso, foi assim que a Boneca passou a ocupar um lugar na minha vida.

Em dias felizes, nas rotinas banais e também nas preocupações que para uma criança de 11 anos, pareciam enormes.

Ao voltar a ler o meu diário, uma das coisas que mais me emociona é perceber como ela aparece naturalmente nas páginas da minha vida.

Está lá porque fazia parte dos meus dias.

A 22 de julho de 1989 escrevi:

"Hoje li, brinquei, vi televisão, toquei órgão, etc...
Hoje fui com a cadela ao Veterinário e estava tudo bem com ela levou 3 vacinas ...
Hoje o dia foi otimamente bom."
— Margarete Cardoso

É um excerto simples, quase insignificante, mas para mim guarda informação muito importante.

A Boneca já fazia parte da minha rotina. Entre ler, brincar, ver televisão ou tocar órgão, estava também o cuidar dela.

Algumas semanas mais tarde, a 16 de setembro de 1989, voltou a ocupar um lugar especial nas páginas do diário:

"Fui com a minha cadela ao Veterinário, tomou as mesmas vacinas, porque em Agosto ela não tomou vacinas.
Enquanto, não chegou à nossa vez, a minha cadela, brincava com um Boxeur, ele é muito bom para as crianças e já está habituado a Cockers, então deitava-se, e com a patinha passava, levemente na cadela, enquanto, ela passava-lhe por cima, davam beijinhos, até que ela deu um suspiro, tal e qual como as pessoas, e o dono, diz que às vezes, durante a noite, acorda porque eles ressonam muito alto.
Ele tem 3 Boxeurs, e vive no campo ... Bom, mas aquilo foi maravilhoso.
Realmente, os Boxeur são uns amores e aquele era lindo!
E o dono, não os utilizava para a caça.
Os Boxeurs, são muito fofinhos.
O dia foi realmente muito bom e engraçado."
— Margarete Cardoso

Hoje percebo que estes registos confessam mais do que uma ida ao veterinário.

Mostram a importância que a Boneca já tinha para mim.

Mostram a atenção que eu dedicava aos seus comportamentos e à sua saúde.

Eu guardava aquelas memórias porque tinham significado e registá-las no diário tornou-se uma forma de as preservar.

Era uma forma de conservar a própria Boneca.

 

Quando o cuidar se torna uma expressão de amor

Quem partilha a vida com um animal de companhia sabe que o amor também se constrói nos cuidados de todos os dias.

Está nas idas ao veterinário, na atenção à alimentação, nos medicamentos, nas noites de preocupação e em cada carinho para garantir que a nossa companhia está bem.

Acredito que, enquanto tutores, temos a responsabilidade de cuidar, proteger, mimar e proporcionar aos nossos animais de companhia as condições necessárias para viverem com qualidade.

E a beleza desta relação é que recebemos também uma forma muito especial de amor e companheirismo.

Quando a Boneca ficou doente, acompanhei tudo ao pormenor. Mesmo sendo ainda uma criança, sentia uma enorme responsabilidade por ela.

No diário, a 6 de outubro de 1989, escrevi:

Nota: Transcrevo, palavra por palavra, exatamente como escrevi no meu diário de infância. Sem filtros e sem correções ortográficas.

"Hoje a minha cadela deu-me um grande trabalho!
Foi assim: a senhora deu-lhe arroz e carne e ela comeu, mas vomitou, e as formigas atacavam, e ela ficava a um cantinho.
Quando eu vi aquilo, tirei imediatamente a cadela de lá, e posse-a na escada.
E ela gania, ela queria o meu colo, gania, descansava, ás vezes estava no meu colo e gania.
Eu andava de um lado para o outro com ela.
Mas, eu pensei que as formigas estavam nela e mordeam-lhe, observei-a e nada.
Até que eu estava a dar-lhe banho e ela muito sossegada deixava-me fazer tudo.
Depois, peguei no cobertor e fui pô-la na casa de passar a ferro, e ela lá ficou, enquanto eu lavava a casa dela, as tijelas, o quintal, a toalha de banho dela e a outra toalha, isto tudo descalça.
Depois, fui buscá-la e ela quando entrou dentro da casota, ficou lá e nem jantou.
Fui tomar um duche e fomos jantar com a D. Leonilde a um restaurante e fomos para casa dela, porque a minha mãe, tinha umas coisas a falar com ela.
A minha irmã, ficou lá a dormir e só vem no Domingo à noite, ou na Segunda à tarde.
Quando chegamos a casa, eu fui logo abrir a minha cama e o meu irmão dormiu na cama da minha irmã.
O dia foi bom e cheio de trabalho."
— Margarete Cardoso

No dia seguinte, escrevi:

"A minha cadela, está com dores de barriga e diarreia, foi por isso que ela estava ontem assim.
A minha mãe telefonou ao Veterinário e ele disse para eu dar-lhe Ultra-Levura e arroz e água.
Ela não quer comer, mas nós obrigamos.
Hoje à noite, estava cheia de fome, a cadela, e comeu o arroz todo até queria mais."
— Margarete Cardoso

Ao reler estas páginas, além de reconhecer a preocupação que sentia naquela altura, recordo-me também do sentido de responsabilidade e da vontade de ajudar quando testemunhava alterações no comportamento da Boneca.

Hoje, consigo olhar para essas palavras com outros olhos.

Aos 11 anos, eu já compreendia, à minha maneira, que cuidar de um animal de companhia significava estar presente em todas as fases da sua vida. Quando corria pelo quintal cheia de energia, quando procurava colo, quando precisava de atenção e, sobretudo, quando estava doente e dependia de mim.

Por esta ligação tão forte, afirmo que o luto pela perda de um animal de companhia pode ser muito intenso.

Quando uma relação é construída ao longo de anos, a despedida quebra as rotinas, os cuidados, as memórias e todos os momentos que deram forma à vida em família.

São essas memórias aparentemente pequenas que permanecem.

 

O dia em que se tornou mãe

Entre todas as páginas do meu diário, existe uma que desperta em mim uma emoção especial. O dia em que a Boneca foi mãe.

Recordo a ansiedade na forma como passei horas a observá-la, completamente envolvida naquele momento.

Hoje, percebo que estava a acompanhar o nascimento dos filhos de uma cadela que amava profundamente e a guardar, com os olhos de uma criança, cada pormenor daquela experiência.

Acompanhei cada segundo, observei cada mudança e permaneci atenta a cada sinal.

Assisti a algo extraordinário.

Senti um orgulho enorme na Boneca.

A 21 de janeiro de 1993 escrevi:

Nota: Transcrevo, palavra por palavra, exatamente como escrevi no meu diário de infância. Sem filtros e sem correções ortográficas.

"Hoje não tive, praticamente, aulas nenhumas.
Tive feriado a História (primeiro tempo da manhã), tive teste a Física-Química (segunda hora) e, como sabia que ia ter feriado a Matemática e a Português vim-me embora para casa, no autocarro das 11h. Quando cheguei a Gina disse-me que a cadela deveria de estar prestes a ter os filhos.
Bom, mas fui às aulas de tarde e tive feriado a Inglês e a Professora de Quimicotecnica disse ao turno da Sara que o meu turno iria ter feriado. E, por isso, tive a aula da Psicóloga das 14h30m às 15h30m. Cheguei a casa às 17h e a cadela já tinha rebentado a bolsa de água.
A partir desta notícia de 30 em 30 m, eu ia ver como é que a Boneca se encontrava.
Eram 19h45m quando venho ver o estado da cadelinha e ouço chiar como um rato e pensei “Será que está aqui um rato? Tenho de o descobrir, e tirá-lo daqui antes que a Boneca tenha os cachorrinhos.”
Mas, olho melhor para a casota dela e surpreende-me uma coisinha minúscula, preto e branco, com rabito grande a chiar – o primeiro cachorrinho! Fiquei tão contente que chamei o Xana, a Tininha e telefonei à mãe.
No final desta emoção toda fui jantar e fui para junto da minha Boneca era 21h10m.
A Boneca portou-se muito bem!
O local do nascimento dos cães manteve-se muito limpo e, o cão só tem o cordão umbilical, porque de resto está limpíssimo.
Anda sempre em cima da mãe e não abre os olhos.
As 21h15m nasce o segundo cachorrinho, o qual eu assisto ao parto com muito orgulho.
Quando começou a sentir as contracções, ela começou a empurrar e a “bufar” como se fosse uma mulher.
O segundo filho nasceu de uma maneira muito engraçada.
Colocou somente o rabo e as patas traseiras dentro da casota e, nasce o segundo filhote envolto numa bolsa de água.
Rapidamente, a Boneca começa a limpá-lo e eu reparo nas minúsculas unhas das patas e no minúsculo cachorrinho com um rabito grande.
Este é castanho escuro e é muito bonito.
Telefonei rapidamente à mãe e à Miriam e voltei para junto da cadela.
O terceiro filho nasceu às 21h45m, mas desta vez ela colocou o rabo de fora e as patas traseiras, e ele saíu.
Também veio cá para fora, embrulhado numa bolsa de água que ela rapidamente limpou e, também comeu o cordão umbilical mais umas enormes porcarias que vêm com o cão.
Este é completamente preto e só tem uma risca branca, muito pequena no pescoço.
Quando a cadela teve este cachorrinho, telefonei à tia Aurora, que ficou super feliz, à mãe e à Miriam e, voltei novamente para junto da Boneca, onde me encontro, neste momento, a escrever as páginas do meu diário sentada num banco a observar a Boneca que se encontra cansada e, fico à espera que nasça mais um ou dois cachorrinhos. Pelo menos, sinto um, mas penso que não há segundo filho."
— Margarete Cardoso

Há vários aspetos que me emocionam neste relato.

As pequenas unhas. Os rabitos. Os sons. O cuidado da Boneca com os filhos.

Cada nascimento ficou registado com a minha família, pois eu ligava sempre que nascia mais um. Isso revela o fascínio que sentia por ela.

Quando leio esta parte do diário, percebo que estava a guardar uma experiência que iria ganhar um significado especial com o passar dos anos.

É isso que torna estas páginas tão especiais. Permitem-me regressar a um momento de há décadas e voltar a sentir, através das palavras que escrevi em criança, a alegria de estar ao lado da Boneca.

 

O que a Boneca me ensinou sobre o luto por um animal de estimação

Os anos passaram. Fui estudar para Coimbra e a Boneca envelheceu. Mais tarde, desenvolveu cancro da mama. Foi operada, mas a doença já estava num estado avançado.

A Boneca morreu em 1999, com 10 anos. Dez anos depois daquele dia de julho em que escrevi, no meu diário, que tinha recebido a melhor notícia de toda a minha vida.

Quando morreu, eu estava longe.

Foi a minha mãe que me deu a notícia. A mesma pessoa que, dez anos antes, me tinha dito que íamos ter uma cadelinha. Em 1989, a notícia dela encheu-me de felicidade. Em 1999, deixou-me sem chão.

Senti uma tristeza enorme. E, sobretudo, senti culpa. Culpa por não ter estado ao lado dela naquele momento e por a doença ter sido descoberta quando já não havia nada a fazer.

A minha mãe contou-me que a Boneca foi até à entrada da porta da cozinha, deitou-se no tapete e ali permaneceu. Quando deu por ela, já tinha partido.

Não tive a oportunidade de me despedir dela.

Não lhe peguei ao colo uma última vez, não lhe fiz um último carinho, não lhe disse o que ela tinha sido na minha vida.

Quem perdeu um animal sem estar presente sabe o peso que essa ausência acrescenta à perda. Fica a sensação de que faltou fechar algo.

Durante muito tempo, carreguei comigo muitas perguntas: “Será que fui suficiente para ela?”; “Será que fiz tudo o que podia por ela?”; “Será que ela se sentiu abandonada por mim?”; “Será que ela devia ter tido filhos?”

Pensei vezes sem conta no que poderia ter feito, no que poderia ter mudado e na possibilidade de ter estado presente naquele momento.

Hoje compreendo melhor essa culpa. Muitas vezes, ela nasce do amor que sentimos por quem perdemos.

Na maioria das formas de luto, a culpa faz parte do processo. Surgem perguntas que nos acompanham durante muito tempo: Poderíamos ter feito mais? Se tivéssemos reparado em algo mais cedo, teria sido possível tratar a doença? Deveríamos ter escolhido um plano de tratamento diferente?

Um milhão de perguntas, com um milhão de respostas possíveis. E nenhuma delas elimina a dor da perda.

Millie Jacobs, autora do livro O Luto por um Animal de Estimação, explica que chega um momento em que precisamos de aceitar que tomámos as melhores decisões com a informação que tínhamos na altura. Não possuímos uma bola de cristal para prever o futuro. Tudo o que tínhamos era aquilo que sabíamos naquele momento e cada escolha foi feita com as melhores intenções e com amor no coração.

Temos de aprender a largar os «e se» e a aceitar «aquilo que foi».

É nessa aceitação que a paz começa a surgir e a dor pode continuar a ser processada.

Com o passar dos anos, percebi também que cada pessoa constrói uma relação diferente com os seus animais de companhia. E essa diferença ajuda-nos a compreender porque cada luto é vivido de forma tão única.

Os meus pais sempre tiveram cães e cuidaram bem deles. Têm espaço, quintal e uma casota enorme preparada para os receber. Está sempre tudo limpo, têm uma alimentação cuidada e cuidados veterinários sempre que precisam.

Mas existe um limite que definiram: os animais não entram em casa, não participam nas atividades da família e não existe aquele contacto próximo.

Já eu segui outro caminho.

Os meus animais vivem dentro de casa, dormem perto de mim ou mesmo comigo, acompanham os meus dias e fazem parte deles. Abraço-os, mimo-os e falo com eles. Organizo a minha vida em função deles.

Calhou, nesta vida, eu ser a humana e eles os animais.

Acredito que devo fazer tudo o que está ao meu alcance para lhes proporcionar uma vida com qualidade, tranquilidade e amor. Quero que os meus animais se sintam felizes, seguros e amados.

Há um outro pormenor na forma como vejo a vida animal. No meu entendimento, não faz sentido promover a reprodução para depois dar ou vender os filhotes.

Por essa razão, os meus animais não têm filhos. E, se algum dia tiverem, será para ficarem comigo.

Acredito que esta forma de olhar para os animais nasce, em parte, daquilo que aprendi desde cedo com a Boneca: um animal de companhia ocupa um lugar muito especial na nossa vida.

Quando parte, deixa saudade da sua presença, das brincadeiras, dos gestos e daquela forma única de amar.

E, no luto de um animal de estimação, pode também surgir a sensação de que a nossa dor é demasiado intensa para ser compreendida por quem está de fora.

Mas também acredito que essa dor merece espaço.

Foi isso que a Boneca me ensinou sobre o luto: a saudade não é exagerada, é apenas do tamanho do amor que existiu. Se estiveres a viver essa dor, ela também não precisa de ser explicada a ninguém.

"Ninguém deve sentir-se envergonhado dos sentimentos com que se debate perante a perda do seu amado companheiro."
— Millie Jacobs
 

Saudade no luto do animal de estimação: Porque continuo a falar da Boneca

Apesar de terem passado muitos anos, continuo a falar da Boneca porque ela faz parte da minha vida.

Continuo a lembrar-me dela.

A sua presença deixou marcas em mim e algumas delas continuam vivas nas minhas memórias, tanto nas palavras que escrevo, como na forma de compreender a relação entre pessoas e animais.

Ela marcou a forma como me relaciono com os animais. Ensinou-me que um animal não é um acessório da nossa vida, é um membro da família com um lugar à mesa, na cama e nas decisões que tomo. E ensinou-me a escrever sobre eles, porque foi por causa dela que comecei a guardar em palavras aquilo que sinto pelos animais que me acompanham.

Hoje, esse lugar é da Beca, uma pinscher anão de 11 anos que é o meu mundo. Costumo dizer que é uma pessoa no corpo de um cão.

A Beca não substitui a Boneca. Nenhum animal substitui outro. Mas é com ela que percebo que a Boneca me ensinou a amar assim - sem medida, sem reservas e sem me preocupar com quem não entende.

Volto a ler as páginas escritas do meu diário e recordo como eu estava maravilhada com a chegada de uma cadela castanha.

Recordar um animal de companhia que amamos é uma forma de manter viva a importância que teve na nossa vida.

"Até termos amado um animal, parte da nossa alma permanece adormecida."
— Anatole France
 

Como lidar com a perda de um animal de estimação

Se também perdeste um animal de estimação e ainda falas dele, sentes saudade ou te emocionas ao recordar os momentos que viveram juntos, isso mostra o quanto essa relação foi importante para ti.

O amor transforma-se quando a tua vida muda. Não acaba: passa a viver na memória, na saudade e na forma como falas de quem partiu.

A perda da Boneca ensinou-me aquilo que só compreendi muitos anos mais tarde: o luto está intimamente ligado ao amor que sentimos por quem partiu.

O luto do animal de estimação pode trazer saudade, culpa, perguntas sem resposta e a sensação de que uma parte importante da nossa vida ficou para trás.

Mas acredita que viver o luto é incluir essa experiência na tua história, dando valor ao que sentes.

Significa continuar a amar e a viver.

Por isso, é natural que precises de tempo para encontrar o caminho a seguir.

Por vezes, precisamos apenas de um espaço seguro para dar voz ao que sentimos e integrar essa perda na nossa história.

E, para te apoiar nesse caminho, criei o programa Escreve a Tua História, adaptado a quem vive o luto animal, enfrenta uma doença oncológica ou atravessa uma mudança inesperada na vida.

É um espaço onde podes organizar pensamentos, emoções e memórias. Um lugar onde podes falar do teu companheiro de quatro patas sem receios, recordar os momentos que viveram juntos e dar espaço à dor, sem a necessidade de a esconder.

Ao longo deste percurso, vais construindo uma nova relação com a tua história. Uma relação que te permite olhar para o passado com amor, viver o presente com mais serenidade e continuar a avançar sem sentir que estás a deixar para trás quem foi importante para ti.

Se sentes que é disto que precisas, conhece o programa Escreve a Tua História.

Bibliografia:

 

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Perguntas frequentes sobre o luto do animal de estimação

 
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