A Importância dos Animais de Companhia na Saúde Mental

Em outubro, assinala-se o Dia Mundial da Saúde Mental (10 de outubro), e, como tal, não poderia deixar de falar sobre este assunto cada vez mais atual e, também, extremamente necessário. A consciencialização é importante e encontrar diferentes soluções para cuidar da nossa saúde mental também.

Neste artigo, quero falar-te sobre saúde mental, partilhar contigo alguns números que me chamaram a atenção e mostrar-te como os animais de companhia oferecem uma resposta diferente às dificuldades que muitas vezes enfrentamos.

 

Os números da saúde mental

Atualmente, a saúde mental é uma preocupação da maioria das pessoas, independentemente do seu género ou estatuto social. Os números nacionais e internacionais deixam sinais de alarme, demonstrando por que razão a saúde mental deve ser tida em conta:

  • 12 % das doenças em todo o mundo devem-se a questões do foro mental (23 % se estivermos a falar dos países desenvolvidos).

  • A depressão é a terceira causa de carga global de doença no mundo e a primeira nos países desenvolvidos.

  • 165 milhões de pessoas na Europa são afetadas, anualmente, por questões de doença mental.

  • Apenas um quarto dos doentes com doença mental recebe tratamento e só 10 % têm tratamento adequado à sua necessidade.

  • Nos últimos anos, as perturbações mentais tornaram-se a principal causa de incapacidade e uma das principais causas de morbilidade nas sociedades.

Infelizmente, se considerarmos a situação de Portugal, os números também são reveladores e, por serem preocupantes, merecem o nosso destaque.

 

Portugal é o “campeão” dos problemas de saúde mental

Segundo a Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental (SPPSM), mais de um quinto dos portugueses (22,9 %) sofre de uma perturbação psiquiátrica ou mental, o que coloca Portugal como o segundo país com maior prevalência deste tipo de doenças na Europa, logo atrás da Irlanda do Norte (23,1 %).

Se considerarmos a União Europeia (UE), Portugal encabeça o ranking, com 22 % da população afetada, contra uma média europeia de 16,7 %. E não falamos só de casos ligeiros: cerca de 4 % dos adultos têm uma perturbação mental grave e 11,6 % uma perturbação moderada.

Ainda que seja difícil obter valores totalmente fidedignos sobre a percentagem exata de pessoas afetadas por perturbações mentais em cada país – as opções metodológicas de recolha de dados levam à possibilidade de subavaliação do peso real dos números -, os dados de que dispomos são os suficientes para nos deixar alerta para esta questão.

 

Prevalência em Portugal em 2019

As estimativas de prevalência de 2019 reveladas pelo Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde (IHME) da Universidade de Washington mostram-nos uma radiografia da população portuguesa:

  • As perturbações de ansiedade (9 %) são as mais frequentes, seguindo-se as perturbações depressivas (6 %) e as perturbações associadas ao consumo de álcool e drogas (4 %).

  • As mulheres apresentam uma prevalência maior face aos homens, no que toca a taxas de depressão, mas o cenário inverte-se se estivermos a falar de taxas de suicídio: a morte por suicídio é 4 vezes mais provável em homens do que em mulheres.

 

Medicamentos & saúde mental

Outro dado interessante sobre a realidade portuguesa está relacionado com o consumo de psicofármacos, mais elevado do que na maioria dos países da UE: entre 2017 e 2022, o consumo de antidepressivos aumentou 45 %. Esta tendência acompanha a dos outros países europeus e pode ser explicada, em parte, por um melhor diagnóstico das perturbações mentais e pela maior acessibilidade ao tratamento, mas também pela falta de alternativas não farmacológicas. 

E os dados mais recentes vão no mesmo sentido. Dados do Instituto Nacional de Estatística (2025) revelam que, em 2024, 32 % das pessoas com 16 ou mais anos tinham sintomas de ansiedade generalizada e 10,4% apresentavam níveis de ansiedade mais graves. São números que nos fazem pensar.

 

Mas, afinal, por que é tão importante a saúde mental?

Antes de pensar no porquê de ser tão importante, pensemos no que representa, de facto, a saúde mental. A Organização Mundial da Saúde (OMS) define saúde mental como um estado de bem-estar no qual a pessoa reconhece as suas capacidades, consegue lidar com o stresse do dia a dia, trabalhar de forma produtiva e contribuir para a sua comunidade.

É uma componente essencial do bem-estar geral, influenciando a maneira como pensamos, sentimos e agimos em diferentes situações da vida.

Ter uma boa saúde mental vai além da ausência de doenças mentais. Envolve também a capacidade de lidar com o stresse, manter relações saudáveis, tomar decisões, enfrentar desafios e alcançar um equilíbrio entre as emoções.

É fundamental para o funcionamento diário, ajudando-nos a enfrentar desafios, a estabelecer relações saudáveis e a lidar com as adversidades.

Importa, também, reforçar que a saúde mental tem vindo a ocupar mais espaço na nossa conceção de saúde, tendo-se tornado num dos seus pilares fundamentais.

Os elevados números da prevalência de doenças do foro mental em Portugal têm impacto significativo no bem-estar emocional dos portugueses e, além disso, na economia do país. Para termos uma ideia do seu peso, as perturbações mentais e do comportamento representam 11,8 % da carga global de doença em Portugal, mais do que as doenças oncológicas (10,4 %) e só atrás das doenças cérebro-cardiovasculares (13,7 %).

Apesar dos esforços, os serviços especializados enfrentam falta de pessoal e de critérios de referenciação uniformes, o que provoca longas listas de espera. Ainda assim, há boas notícias: o Plano Nacional de Saúde Mental de Portugal perspetiva melhorar a disponibilidade de serviços nos próximos anos.

 

Soluções fora do consultório

Os estudos e a experiência atual levam-nos a considerar outras soluções e contributos, menos convencionais e fora dos centros de saúde e dos hospitais, como é o caso dos animais de estimação.

Recentemente, em Barcelos, o projeto AtivaMente pôs esta ideia em prática. Este programa, que inclui atividades como caminhada, mindfulness, sessões de Pilates, hidroginástica, jogos tradicionais e terapia assistida por animais, será desenvolvido ao longo de 12 semanas e promete acompanhar cerca de 30 adultos diagnosticados com depressão. O objetivo é promover diferentes experiências em contexto comunitário que ajudarão a trabalhar componentes como o bem-estar, a comunicação, a interação social, a autonomia e a confiança. No final do programa, o mesmo será avaliado para perceber o seu impacto e quais os passos seguintes.

Este programa é uma novidade, mas a razão dele existir, não. A literatura veio confirmar a importância dos animais de companhia para o bem-estar emocional (e não só). Por essa razão, vou-te apresentar alguns pontos interessantes sobre o tema.

 

Animais de companhia e saúde mental

Quem nunca ficou a olhar com encanto para um animal de companhia? O nosso ou um que nos aparece pelo caminho? Na verdade, os animais de companhia têm um papel muito importante na vida dos seus tutores e da família em que estão inseridos.

Escrevi, há uns tempos, um artigo sobre o papel dos animais de companhia.

Longe vão os tempos em que um cão, um gato ou outro qualquer animal de companhia eram considerados simples companheiros ou que eram usados unicamente para servir o ser humano, como era o caso dos cães de pastoreio. De há uns anos a esta parte, tornaram-se oficialmente membros das nossas famílias e há várias razões para isso ter acontecido. Uma delas prende-se com o facto de contribuírem para a nossa saúde mental e o nosso bem-estar geral.

Cerca de 40 % dos lares portugueses têm um cão e 38 % um gato. Estes são dados da Mars Petcare e demonstram o interesse em integrar e acolher um animal de companhia na dinâmica familiar.

 

Impacto dos animais de estimação e saúde mental

O estudo que já referi anteriormente menciona outros princípios importantes. A nível global, a maioria dos tutores referiu que os seus animais de estimação têm um impacto positivo na sua saúde mental (cerca de 83 %) e, em Portugal, mais de metade revelou que estes os ajudam a gerir melhor o stresse, 58 % procuram conforto junto do animal em momentos de maior pressão, muitas vezes antes de recorrerem à família ou aos amigos, e 84 % dos inquiridos referiu que a simples presença dos animais de companhia ajuda a acalmar e a relaxar.

Mas desengane-se quem pensa que o impacto dos animais de companhia se resume às melhorias da saúde mental. O mesmo inquérito revelou que ter um animal de companhia incentiva a ter hábitos mais saudáveis. 71 % dos tutores diz-se mais incentivado a passar mais tempo ao ar livre e 78 % refere que ter um animal de companhia potencia as pausas e os momentos de descontração ao longo do dia.

Os benefícios de ter um animal de companhia são bastante conhecidos e amplamente referidos na literatura. Apesar disso, parece que esta influência poderia ser mais bem aproveitada. Vamos, ainda, a tempo de o fazer. O programa AtivaMente que referi anteriormente é um bom exemplo disso mesmo.

 

O que diz a ciência sobre a saúde e os animais de estimação

No caso do cão, quando as necessidades físicas e emocionais do animal estão asseguradas, ele pode tornar-se um importante suporte emocional do tutor, segundo o Colégio de Veterinários de Alicante. Ainda que este animal de estimação não seja uma terapia em si mesmo, a ciência tem vindo a mostrar que a sua importância na saúde mental e no bem-estar emocional não é uma perceção subjetiva, mas algo concreto.

Por aqui, costumamos falar sobre neurociência e mesmo neste tema não temos como escapar. Um estudo da Universidade de Viena comprovou que os cães conseguem distinguir diferentes emoções humanas através da observação do rosto das pessoas. Mesmo sem interpretarem as emoções como nós, humanos, os animais reconhecem sinais de alegria, medo ou tristeza. Por essa razão sentimos que percebem quando não estamos num bom dia.

Não é uma impressão nossa. A ciência já encontrou evidências que ajudam a explicar aquilo que os humanos sentem na relação com os nossos animais de companhia.

 

Sendo assim, por que razão os animais nos fazem tão bem?

Além do charme, do olhar carinhoso e do pelo sedoso, os animais de companhia trazem-nos uma enorme sensação de bem-estar explicada, em parte, pela ação da hormona do amor, a ocitocina. O nível desta hormona aumenta quando interagimos com um animal de companhia, em momentos tão variados como uma brincadeira, um passeio, um olhar ou um momento de mimo.

Este aumento leva a reações fisiológicas benéficas, nomeadamente a redução da pressão arterial, redução da frequência cardíaca e inibição das hormonas associadas ao stresse, como é o caso do cortisol. É por isso que nos sentimos relaxados e animados quando temos os nossos animais de companhia por perto ou quando brincamos com eles.

Este bem-estar não se limita a animais de estimação “de ter por casa”. Há outros animais que fazem maravilhas pela forma como nos sentimos. A hipoterapia (realizada com cavalos) ajuda a aliviar a ansiedade e a tensão emocional e o simples chilrear dos pássaros que aparecem no nosso jardim pode melhorar o humor e reduzir o stresse.

Mais do que nunca, sabemos o impacto positivo dos animais na nossa saúde e as evidências apontam na mesma direção. Os animais de companhia são uma presença terapêutica real e constante na forma como nos sentimos.

 

Animais de companhia: Uma ajuda em todas as idades

Poderia dar-se o caso de considerarem que os animais de companhia seriam adequados apenas para determinadas faixas etárias. Não é verdade.

O Dr. Rodrigo da Costa, geriatra da Cora Residencial Senior, alertou para a importância de um animal de companhia na vida de uma pessoa idosa já que existem benefícios para o humor, para a memória e para a socialização. O mesmo profissional referiu que, até em doenças crónicas como a diabetes ou a hipertensão, o controlo e a manutenção das mesmas pode beneficiar da relação com os animais de companhia, pois sabe-se que pessoas idosas que interagem com animais costumam ser mais funcionais e independentes.

Além disso, sabe-se que a interação entre pessoas idosas e fiéis companheiros do mundo animal promove melhorias na saúde cognitiva, física, emocional e social dos humanos.

Não é por acaso que algumas instituições para pessoas idosas têm projetos como o Pet Terapia em que os animais de companhia são presença contínua na vida das pessoas idosas.

 

Animais de estimação e saúde mental na geriatria

Importa também referir a relevância dos animais de companhia no combate à solidão, característica muito própria da população idosa.

Um estudo da Universidade de Michigan, de 2019, com 2000 pessoas entre os 50 anos e os 80 anos, demonstrou que viver com um animal de companhia ajuda no envelhecimento saudável. 90% dos tutores disseram que os animais os ajudam a viver melhor, 80 % que reduzem o stresse e mais de 60 % que são importantes para enfrentar a depressão, o isolamento e a solidão. À semelhança de outras populações, os animais de companhia incentivam à prática de atividade física, à interação social e reforçam o sistema imunitário das pessoas idosas.

Não é por acaso que chamamos ao cão o melhor amigo do Homem. E, quando falamos de amizade, há um grupo muito particular que merece a nossa atenção.

 

O caso específico das pessoas em situação de sem-abrigo

A saúde mental pode afetar qualquer pessoa. Para quem vive sem-abrigo, existem ainda outras dificuldades que podem pesar no bem-estar emocional, como a vergonha, o sentimento de fracasso e a falta de estabilidade.

Fatores como a doença mental, o abuso de substâncias, o desemprego, a falta de uma rede de apoio ou a existência de violência levam a uma situação de sem-abrigo prolongada no tempo.

Portugal tem assistido, nos últimos anos, a um aumento significativo do número de pessoas em situação de sem-abrigo. Os dados recentes de Caracterização das Pessoas em Situação de Sem-Abrigo, relativos a 2023, dão conta de 13 128 pessoas que estão nesta situação.

Sem uma necessidade tão básica como a habitação, o dia a dia torna-se um desafio constante. Situações que nos parecem simples como indicar uma morada ou o contacto telefónico nos serviços de saúde, estabelecer relações terapêuticas de confiança, ou recorrer à rede de apoio e suporte são desafios que interferem na saúde destas pessoas. A isto junta-se o estigma, que muitas vezes culpabiliza a pessoa pela sua situação.

 

Animais de estimação e saúde mental: Um fiel amigo, mesmo na rua

Muitas vezes, deparamo-nos com pessoas a viver na rua que mantêm a companhia dos seus fiéis amigos, normalmente cães. São tempos desafiantes os que vivem, mas os animais de companhia acompanham os seus amigos humanos, independentemente do frio ou da falta de abrigo.

Esta amizade enfrenta desafios próprios, já que a pessoa poderá estar a viver na rua (e, por isso, ter dificuldades para cuidar do seu animal) ou num alojamento temporário (vendo-se impedida de ficar com o seu companheiro).

Em qualquer dos casos, o seu animal é muitas vezes a principal companhia e fonte de estabilidade emocional. Há pessoas em situação de sem-abrigo que preferem dormir na rua a ter de ficar sem a sua companhia, tal como é referido num estudo realizado no Reino Unido e publicado na revista PLoS One.

Esse mesmo estudo, ainda que com uma amostra pequena, apresenta dados interessantes. Cerca de 10 % das pessoas que estão em situação de sem-abrigo no Reino Unido, possuem um animal de companhia ao qual a sua ligação é muito forte. Por vezes, o facto de ter um animal de companhia pode dificultar o acesso à saúde e à habitação, sobretudo em locais que não permitem a presença de animais.

Quanto aos animais, os cães que acompanhavam as pessoas do estudo estavam de boa saúde e recebiam, em geral, cuidados preventivos regulares, como desparasitações e vacinas.

O estudo concluiu ainda que reconhecer, no acompanhamento terapêutico, a importância do animal de estimação na vida da pessoa pode ajudar a criar uma relação de confiança e a abrir a porta aos cuidados.

Por isso, os autores defendem uma abordagem de Saúde Única (One Health), que olhe para a saúde da pessoa e do animal em conjunto, com profissionais de saúde, veterinários e assistentes sociais a trabalhar de forma coordenada.

 

E quando o apoio do animal deixa de estar lá?

Os animais de companhia têm uma vida mais curta do que a nossa. Por isso, em algum momento, vamos enfrentar a perda de um animal que amamos e passar pelo luto. A ausência muda os nossos dias e traz desafios que precisamos de aprender a enfrentar, ao mesmo tempo, queremos continuar a recordar esse animal e tudo o que vivemos juntos, sem sentir que estamos a deixá-lo para trás.

É um processo que transforma o amor na saudade que sentimos por não termos os nossos animais de companhia por perto. Sei do que falo, porque tive a oportunidade de conhecer e aproveitar a companhia da Boneca. Podes ler este artigo para ficar a conhecer a história desta cadela que marcou a minha vida.

Ninguém quer perder um animal de companhia. Sei bem o quão difícil é.

 

Como lidar com a perda do teu animal de companhia

Criei o Programa de Apoio ao Luto Animal porque sei como é difícil chegar a casa e encontrar o lugar onde o teu animal costumava estar, vazio. Ao longo de oito sessões, vais aprender a lidar com o luto, a enfrentar os dias sem a presença dele e a cuidar de ti enquanto te adaptas a esta nova realidade.

Não te vou dizer para esqueceres ou simplesmente seguires em frente. Vais aprender a lidar com o que sentes, a falar sobre a perda e a guardar as memórias do animal que tanto amaste, sem precisares de apagar a relação que viveram. Convido-te a conhecer o Programa de Apoio ao Luto Animal.

 

Animais de estimação e saúde mental: Dia Mundial da Saúde Mental

Quando penso que se assinala mundialmente a Saúde Mental no mês de outubro, lembro-me da importância de parares uns minutos e lembrar-te do teu animal de companhia, seja ele qual for. Do momento em que se encosta a ti, do som que faz quando te chama ou das brincadeiras que tornam a casa mais alegre. Agradece-lhe por todos esses momentos e lembra-te de cuidar também de ti e do teu bem-estar emocional.

 

Bibliografia:

 

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